De origem preta e periférica, o rap veio sim dos Estados Unidos como parte da cultura hip-hop, no final da década de 1980, mas a identificação com a causa da luta dos negros norte-americanos e os problemas sociais muito semelhantes aos brasileiros, permitiu que o estilo fosse abraçado no país. Já em terras brasileiras, ganhou um novo significado ao ser fundido com nossa cultura, nossos ritmos e nossa narrativa.

Quando você ouve por aí que o rap salvou uma vida, não ache que isso é exagero. O rap salvou e ainda salva milhares de vidas dando auto-estima, perspectiva, apoio moral e gerando emprego. Os versos de MCs já davam forças para quem não se via representado na televisão muito antes de uma lei garantir isso nas novelas ou na propaganda. Os questionamentos contidos em um verso falavam muito mais com a realidade de uma maioria e faziam muitos ouvintes pensarem mais do que com um editorial de revista ou jornal.

Antes do MC, nos primórdios do rap, o DJ já se expressava dando a letra no microfone ou por meio de seu malabarismo nos toca-discos, contando uma história por meio da obra de artistas de diversos estilos musicais. O rap deu perspectiva, ensinou partes da nossa história como poucos professores tinham recurso para mostrar. Trouxe também o sorriso de quem acordava cedo, encontrava ônibus cheio, humilhação do patrão e ainda tinha alegria para dar o seu melhor para sua comunidade, sua família.

Recentemente, artistas do rap colocaram suas diferenças de lado para denunciar o candidato com ideias fascistas que disputa as eleições. Por meio da hastag #RapPelaDemocracia, nomes como Mano Brown, Emicida, Djonga, Drik Barbosa e Rúbia soltaram o verbo em defesa da democracia. Por sua vez, o Per Raps também se posicionou com textos que expõem o plano de governo que vai de encontro com tudo que o hip-hop defendeu em seus 40 anos de existência.

Nosso foco principal aqui é cultura e quando falamos sobre o tema, não restam dúvidas quando comparamos os planos do candidato do PSL e de Fernando Haddad. Sem perder tempo, veja os pontos do presidenciável do PT (caso se interesse, faça sua busca sobre o plano do adversário e decepcione-se):

  • A cultura voltará a ser uma política de Estado, com observância das Conferências e do Plano Nacional de Cultura para consolidar o Sistema Nacional de Cultura;
  • Vai garantir políticas que respondam aos direitos culturais dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos;
  • O ambiente digital terá políticas inovadoras de direito autoral, assegurando que os recursos cheguem aos artistas e criadores brasileiros;
  • Intensificar o diálogo da cultura com outros campos, como a educação, a ciência e a tecnologia, a comunicação, o esporte, a saúde e o turismo;
  • Haddad vai retomar o programa Cultura Viva e a política dos pontos de cultura e investir em políticas inovadoras nos territórios;
  • Haddad irá fortalecer a economia da cultura para o desenvolvimento do Brasil;
  • Haddad irá combater toda forma de censura às artes e garantirá a cultura como um direito de todos e todas;
  • Haddad irá retomar e fortalecer as políticas públicas para os museus e para o patrimônio histórico e artístico material e imaterial.

A probabilidade de você leitor ser uma pessoa a favor da democracia é enorme e, por isso, saiba que você pode usar os argumentos deste texto para trocar ideia com seus parças que vão de 17. Mas sem violência, sem terminar a amizade. O intuito é argumentar, debater de forma saudável, o rap sempre foi debate de ideias e seguirá assim, tendo censura ou não. Essa pessoa tá mais precisando ser ouvida e convencida do que receber um ataque verbal. Aliás, quando a gente ataca, o “oponente” levanta a guarda, aí já era. O rap é compromisso e é pra frente, sempre será.

A atitude de defender a tortura, a perseguição de seus críticos (como no caso da jornalista da Folha que denunciou a ameaça de morte sofrida por uma ex-esposa do “mito”, e da que denunciou o esquema de Caixa 2 na campanha do PSL, foram ambas linchadas virtualmente pelos seguidores e bots do Messias) e a caça aos movimentos sociais e suas lutas, deixa explícito que o rap será o próximo provável alvo do candidato a presidente pelo PSL nessa escalada de terror.

Sabe como se combate tudo isso? Simples, com o voto e na base da conversa. Convencendo votantes do 17 a enxergar o dano que isso pode causar e principalmente eleitores indecisos a escolherem o PT, nem que seja para que tenham a chance de criticar o governo. Se o outro ganhar, capaz que nem isso seja possível.

“É tudo nosso, então nem vem querer ciscar
É tudo nosso, então a gente tem que cuidar
É tudo nosso, e nunca vai deixar de ser
É tudo nosso irmão então se qué o que ?”
Kamau, “Tudo Nosso”

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