Angela Davis, a arte e a missão de sonhar o futuro

Estes artistas possuem papel fundamental na luta pela liberdade (…) E é isso que me permite vivenciar o futuro do meu sonho.

Lotando a parte externa do Auditório do Ibirapuera – com capacidade para 15 mil pessoas, Angela Davis brindou sua presença em São Paulo com um discurso, no mínimo, inspirador. A filósofa e ativista demonstrou forte comprometimento em relação ao Brasil: está a par, não só do cenário político, mas dos acontecimentos – trágicos e gloriosos daqui – e dos movimentos de luta e mobilização, conhecimento que dificilmente um intelectual vindo do exterior domina, ou faz questão de dominar.

Sua menção à Marielle Franco, Ágatha Félix, Preta Ferreira, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Mãe Stella de Oxóssi, Benedita da Silva, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo – entre outras figuras importantes no Brasil, além de movimentos como o MST, mostra como sua relação de troca é enriquecedora. Mais do que mostrar abertura e interesse pelo pensamento brasileiro, Angela Davis ecoa essas vozes para o mundo.

Seu pensamento alcança uma totalidade necessária. Pensar como Angela Davis é pensar o todo e em como as causas sociais devem estar relacionadas. Em como o racismo, hétero-patriarcado e capitalismo se articulam para manutenção de privilégios de um estreito grupo social, não só no Brasil, mas no mundo. Em “como a luta pelo meio ambiente é uma luta pela vida humana, e em como a luta pelas vidas negras é uma luta pela humanidade. Vidas Negras Importam”, como ela mesma disse.

Para enriquecer sua leitura:

E toda essa luta deve ser transnacional. A lógica do racismo, por exemplo, se repete ao redor do mundo. Em seu discurso, ela mostra como o encarceramento em massa, e a suposta luta contra as drogas como justificativa para violência policial contra o povo negro e de periferia se reproduzem, tanto aqui quanto nos EUA de forma sistemática. Neste exemplo, a luta anti carcerária, contra o racismo policial, também devem se reproduzir dessa forma.

Ela fala também cita a luta do povo curdo como uma das mais fortes por um modelo novo de democracia e da participação das mulheres negras em um modelo verdadeiramente democrático em todo o hemisfério, citando a importância de Érica Malunguinho como primeira mulher negra e trans eleita no Congresso, já que “quando as mulheres se movimentam e se engajam em prol da liberdade, elas nunca representam a si mesmas sozinhas, elas representam todos que são membros de suas comunidades.”

Nesta totalidade, se inclui também a luta anti imperialista. Davis e o Partido dos Panteras Negras sempre lutaram contra o imperialismo estadunidense. O fato de sua localização vir do país mais poderoso do mundo não a vislumbra. Muito pelo contrário, ela fez questão de “inverter o fluxo de conhecimento, pois os EUA têm muito mais o que aprender com a Brasil”. Sua saudação e agradecimento ao povo indígena de toda América e seu conhecimento para manutenção da humanidade é parte dessa consciência de descolonização.

“Esta luta é para a construção do mundo que Marielle sonhou”.

Não é apenas sobre batalha, mas também sobre aspiração.

E é aí que entra a arte!

“Imaginar outros mundos possíveis. E frequentemente nossos artistas, nossos músicos, fazem este trabalho de sonhar para nós.” A filósofa fala sobre a experiência de contemplar um grande concerto, um grande show como felicidade compartilhada – já que você não está sozinha neste sentimento, e sim dividindo isso com seus irmãos e irmãs ao redor. A música possibilita sonhar o futuro e lutar em prol da liberdade.

“O Brasil possui uma das tradições musicais mais vibrantes do mundo e vocês deveriam ensinar o mundo afora como vivenciar esta experiência de felicidade coletiva”

disse, citando Margareth Menezes, Clara Nunes e Elza Soares.

Neste momento, foi impossível não lembrar de Rennan da Penha. No contexto que Davis coloca, sua prisão há 6 meses mostra uma das maiores contradições: ele e centenas de DJs de bailes funk têm este papel de levar a experiência de felicidade coletiva através do som, principalmente pra periferia e para o povo negro. E o fato de estar privado de sua liberdade também priva este público indiretamente. Isso mostra que a luta anti carcerária também é luta pela felicidade coletiva.

Reprodução Instagram/@djrennandapenha

No processo de superar a violência, junto com a luta se deu a construção da felicidade, prazer e beleza, sendo “este é o presente do povo negro para o mundo”. A arte sintetiza isto e é uma maneira política de, não apenas negar as injustiças deste mundo, mas afirmar um novo mundo.

Aliás, um mundo onde caibam vários mundos, já que “a arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo” (Vladímir Maiakóvsky), ela está sempre ao lado da busca pela liberdade que é, de fato, uma luta constante. Obrigada, Davis.