Esta é a segunda parte do texto feito por Adailton Moura – autor do livro “A indústria música gospel” (Scortecci, 2018) – sobre Rap Gospel (a primeira parte você confere aqui). Desta vez, ele trata sobre como esse gênero se formou no Brasil, e também sobre suas dificuldades para se popularizar.

Rap Gospel no Brasil

No Brasil, o RAP gospel teve seu auge no final dos anos de 1990 até a metade dos 2000, auge dos trabalhos do DJ Alpiste, Ao Cubo e Pregador Luo  – o mais bem-sucedido comercialmente [atualmente podemos destacar o Kivitz]. Mas perdeu espaço pela falta de apoio das igrejas, desinteresses, investimentos e ausência de visão estratégica de mercado, um dos pontos cruciais para a sobrevivência dentro de um gênero tão concorrido: o gospel brasileiro. O rapper, produtor e criador do Gospel Beat, o principal portal de cultura cristã urbana do Brasil, Éliton Nascimento [L-TON] compartilha da mesma opinião. “É o famoso problema da bolha. O Rap Cristão abraçou o talento, mas ficou no próprio gueto. Com isso perdeu o conhecimento do outro lado do mercado da música”, diz. “Enquanto a cena está em outro momento, o Rap Gospel perdeu o tempo da bola e ainda está discutindo quanto tempo de uma música pode ser sampleada ou não e assim não ter problemas com direito autoral. Somos muito talentosos mas dentro da bolha do gospel o conhecimento não está girando. Assim fica bem complicado evoluir porque não é só mais produzir beats que conta, mas cuidar da carreira por completo”. 

Seguindo essa visão, um número considerável de rappers norte-americanos saíram da “zona de conforto” para atingir um número maior de pessoas, transmitindo as mensagens do evangelho [amor, perdão, salvação] sem necessariamente utilizar a cartilha pré-estabelecida. Boa parte deles se auto-intitularam de cristãos que são rappers e não, necessariamente, fazem RAP voltado ao público cristão.

Na entrevista que me concedeu em 2017 [para o Gospel Beat], Propaganda, um dos MC’s que mais aborda assuntos relacionados a raça e política em suas letras, usou Chance The Rapper como exemplo para falar sobre essa mudança. “Penso que é importante lembrar que estes são termos (rap cristão e rapper cristão) da indústria/mercado em vez de conteúdo. Por exemplo: todo cheff que é cristão é um cheff cristão. Mas o que exatamente é comida cristã?! Digo isso, porque as Escrituras nos ensinam que para o cristão, todo o trabalho é sagrado. Não importa se é pela igreja ou para a igreja. Todos os cristãos estão em missão. O que Chance (The Rapper) disse e fez, nos obrigou a responder uma pergunta maior, que é: o que é música cristã? E o que faz um artista cristão? Seu coração? Intenção? Conteúdo? No final do dia, ainda não conseguimos responder a isso. Todos os outros gêneros são definidos pelo seu som”, observou ele.

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Ao Cubo – um dos principais grupos ao se falar de Rap Gospel feito no Brasil

No conceito tudo funcionou plenamente, mas na prática a história foi outra. Popular na comunidade evangélica, co-fundador da Reach Records [o maior selo independente de RAP gospel e responsável pela carreira de um time de artistas conceituados, Lecrae se tornou alvo de críticas após iniciar uma mudança no teor de suas letras, dando ênfase às questões raciais, de imigração e violência policial. Perdeu apoio, principalmente dos evangélicos brancos  –  que curiosamente eram os que mais consumiam e investiam em sua música. Os ataques foram duros. A comunidade evangélica não aceitou o redirecionamento, pois o sucesso de Lecrae e sua crew só foi possível por causa dela. Mudar foi uma traição. Ele seguiu em frente. E com o disco Anomaly [2014] conseguiu chegar ao topo da Billboard, vendendo mais de 70 mil cópias na primeira semana.

O MC de Atlanta chegou a bateu de frente com rappers seculares, inclusive ao colocar em cheque a verdade que permeia a indústria do RAP, a qual chamou de circo em “Nuthin”. Iniciou-se sua ascensão fora das quatro paredes da igreja. Lecrae tocou com o The Roots no Jimmy Fellon; fez parcerias com Big K.R.I.T., Zaytoven, Tori Kelly, Leon Bridges, Statik Selektah, De La Soul eTy Dolla $ign; ganhou Grammys; assinou com a Columbia Records; e incentivou outros MCs. Porém, continuou a ser criticado. Assim, em 2016, decidiu desabafar através de uma carta publicada no The Huffington Post.

“Navego em culturas diferentes diariamente, e eu entendo como as pessoas podem fazer suposições falsas por causa de sua falta de interação com as culturas em que me encontro. Mas se eles não frequentam muito esses espaços, como podem fazer o julgamento? […] Eu fui criado na cultura Cristã Americana. Sem voz própria. Sem autenticidade. Eu era um boneco. Eu vi tanta falsidade daqueles que alegaram ser meus irmãos e irmãs que eu nem sabia como falar com meu Pai Celestial”, escreveu ele, citando ainda Eric Garner, Mike Brown e o movimento Black Lives Matters.

Toda a crise gerada em torno de suas escolhas — incluindo a participação de uma petição para o controle de armas -, resultou numa depressão. Lecrae pensou em parar, mas continuou na luta. Colocou o RAP cristão no radar das majors da indústria musical. Na sequência dele, outros rappers do gospel também foram contratados pelas gigantes seculares: Dee-1, pela RCA/Sony, e NF e o Social Club, pela Capitol. No entanto, parou por aí.

Saindo da bolha

A bolha foi furada, mas somente uma pequena parcela de MC’s conseguiu sair. A grande maioria continua fazendo a roda girar no “restrito” nicho, que representa um pequeno recorte do cenário geral do RAP. Mesmo assim, boa parte deles conseguem viver da arte que fazem, com shows em festivais, vendagem de discos e livros, palestras, e streaming de áudio e vídeo. Alguns possuem números significativos de plays no streaming e views no Youtube, como é o caso de Andy Mineo que tem mais de 1 milhão de ouvintes mensais no Spotify. “Descoberto” e financiado por Lecrae, ele também conquistou posições privilegiadas. Em 2017, o hit “You Can’t Stop Me”, que já ultrapassa 13 milhões de visualizações, foi usado pelo Indiana Pacers como tema da temporada da NBA. Outro que também se destacou fora do circuito gospel foi o queniano/canadense Shad, que apresentou a premiada série da Netflix “Hip Hop Evolution” e em 2011 desbancou Drake no Juno Awards.

A lista de rappers que movimentam a cena cristã é complementada por Thi’sl, KB, Trip Lee, Derek Minor, Gawvi, 1K Phew, S.O., Braile, J. Givens, Propaganda, Sho Baraka, No Malice [ex-integrante do Clipse], Tedashii, Viktory, J-son, Jack Hill Perry, Da T.R.U.T.H, Ambassador, Canon, Nobigdyl. e Flame — vencedor de um processo contra a Katy Perry por causa do plágio de “Joyful Noise” em “Dark Horse”. Observa-se que número de mulheres é bem reduzido.

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O apresentador da série Hip-Hop Evolution, Shad, é um dos destaques do atual cenário do rap gospel gringo

“Hoje o RAP é a música mais consumida no mundo. Mas o Hip Hop cristão é uma porcentagem muito pequena. Por isso que demorou tanto tempo para que a indústria tivesse um maior interesse, porque é uma parte muito pequena do RAP e é uma parte da música cristã (gospel) que também é muito pequena nos Estados Unidos. O Lecrae é um dos responsáveis por dar essa maior visibilidade para quem era de fora da igreja — pela organização e visão de mercado-, depois que ele e Andy Mineo começaram a mudar o conteúdo das suas letras para atingirem um público maior. Depois que deixaram de se rotular de artistas cristãs, vários outros fizeram o mesmo. Porque? Por que a cultura (do rap gospel) é muito pequena e os caras não querem ficar somente com esse rótulo. Querem também ser reconhecidos fora do ambiente religioso”, diz o brasileiro Edy Magic, que é engenheiro de som e já trabalhou em álbuns dos rappers Fedel, D-Will, Sheena e MC Jin – ator, que participou de filmes da franquia Velozes & Furiosos; e recordista de vitórias no freestyle do BEAT 106 & Party.

Se voltarmos ao início, podemos observar que o RAP gospel segue uma trilha bem parecida com a do gospel. Poucos foram os que se destacaram no “mundo” – para usar um linguajar crente. Mas os que permaneceram dentro do circuito conseguiram se manter relevantes. A diferença entre o RAP Gospel do (digamos) tradicional é a letra, que são focadas na “palavra de Deus” e em mensagens positivas. É a mesma linha tênue que mantém o Gospel e o Blues em prateleiras separadas. E se faz necessário ressaltar que os RAPs feitos pelos MCs citados se diferem do que Kanye West tem feito em seus Sunday Services e o que Snoop Dogg fez no seu álbum gospel, “Bible Of Love”. Estes se aproximam do gospel tradicional, principalmente os feitos por Kirk Franklin, Fred Hammond e Andraé Crouch


Se você curtiu e quer conhecer mais sobre Rap Gospel, ouça a playlist que preparamos no Spotify:


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