– por Carol Patrocinio

image


Se você que está
lendo é mina com certeza já ouviu alguém perguntar onde você
tava, quem é você no rap ou qualquer coisa com essa intenção
estúpida de fazer de conta que seu corre tem menos importância do
que o dos caras.
Quantas vezes todas nós, de jornalistas e
fotógrafas às MCs e DJs não ouvimos, em outras palavras, que somos
invisíveis?

Quer saber quem tava
lá? A gente conta. Porque a gente não sai na foto, a gente é lida
por vocês como corpos e pedaços de carne, a gente não tem as
mesmas chances que os moleques, a gente tem que fazer o corre com
muito mais suor e sangue.

Se você é mina sabe
que tudo é mais difícil. De conseguir o beat, que vai ser oferecido
antes pros caras, até arrumar lugar pra show, porque vão querer que
você “abra” pra um deles.
Você, com vários anos de caminhada,
tem que se provar mais do que uns moleques que apareceram ontem e são
aceitos como se sempre estiveram no corre. O motivo? São caras.

“Rap é pra homem,
né? Mas ce é cobrada 10 vez mais só por ser mulher”

Você corre, se
desdobra, aguenta machismo em todas as fases do seu trabalho, engole
um monte de provocações pra não arrumar treta e é humilhada a
cada vez que os caras têm chance disso – e as minas também,
afinal todo mundo quer estar ao lado de quem tem o poder.

Os shows grandes não
tem minas no line-up – ou se tem é uma só no meio de mais 10
atrações -, as minas são sexualizadas o tempo todo, você é
chamada de vagabunda se usa roupas mais sensuais, e de macho, se
escolheu se vestir de uma maneira mais parecida com a dos caras.

Nos ambientes mistos
você precisa ouvir cantadas de todo tipo, absurdos ditos na frente
de todo mundo. Se você responde, é mal-comida. Se fica quieta, deu
abertura. A gente tá sempre errada por um único motivo: somos
minas.

Te chamam de “puta
disfarçada” em som. Dizem que “a rua é só pra homem”. E
ainda citam só caras, e daqueles que estão no corre durante o mesmo
tempo que várias minas. Mas se Dina Di, que era Dina Di, não teve o
respeito que merecia, não é lembrada como merecia, o que esperar
desses manos? Nossa história é a gente que vai escrever!

Quando você começa a
andar com várias outras minas e faz um rolê só de vocês, sejam
shows ou batalhas, os caras reclamam, dizem que vocês estão
segregando, que o rap precisa de união, que vocês fazem isso porque
não conseguem batalhar de igual pra igual. Mas na primeira batalha, o
mano não pensa duas vezes antes de te chamar de gostosa ou de dizer
que te foderia gostoso.


“Não é uma diss. É
meu direito de resposta”

Lívia Cruz fala por todas nós. A gente tá cansada de ser invisível, de fazerem de conta
que a gente não tá no corre há muito tempo, de não ser chamada
pra estar no holofote de nada. A gente vai, sim, seguir se organizando e fazendo os
nossos rolês, vai colocar a nossa cara no holofote junto com outras
minas – e os manos gays -, vai criar festas incríveis e lançar
discos de fazer os caras chorarem escondidos.

Logo que apareci nos
rolês, os caras me cumprimentavam com um aperto de mão em respeito
ao meu companheiro, mal falavam comigo ou olhavam na minha cara, mas piravam nos textos que eu
escrevia. A cada vez que comentavam dos textos com meu companheiro e
ele dizia que eram meus, pouca gente acreditava. 

Por trás do textos
que mais jogavam a real, dos textos políticos, dos textos mais
questionadores do Per Raps estava uma mina? Comecei a assinar o qeu escrevia pra valorizar não o meu nome, mas ser mulher. Quantas de nós
não fizeram esse mesmo caminho em áreas diferentes?

Tudo isso é nosso
direito. E quando as minas se juntam… Ih! Agora que a gente agarrou o mic, o megafone e tá comandando o volume do som, ninguém tira a nossa voz. 

MAIS:
Por que eu, mulher, não fui ao Festival Batuque 2015
Rapper do grupo Delta9 faz apologia ao estupro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × três =