O Trap do RJ, a Atlanta brasileira

O subgênero do Rap que mais vem se expandindo e gerando polêmicas, ultimamente, com certeza é o Trap. Criado em meados da década de 2000 tendo como um de seus pioneiros DJ Paul (membro do grupo “Three 6 Mafia”, ou “Da Mafia 6ix” — criado em 1991 por Juicy JLord Infamous e o próprio DJ Paul), e que começou a ganhar proporções de reconhecimento gigantescas em 2007, vem sendo a principal vertente do hip-hop na América do Norte, e cada vez mais se espalhando pelo mundo inteiro, revelando artistas e produtores por quase todos os continentes, possuindo grande fanbase no Brasil.

O movimento que estourou quando representado por artistas como Gucci Mane e Young Jeezy, entre outros que já estão nesse movimento de longa data, tem uma origem: a cidade de Atlanta, conhecida por ser a sede de distribuição de drogas para a costa leste, pelos artistas que vieram de lá e por ser o berço da Trap music.

O coletivo “Recayd Mob” em sua formação antiga (antes da saída de Klyn)
O coletivo “Recayd Mob” em sua formação antiga (antes da saída de Klyn)

É inegável que a Recayd Mob foi a principal ‘mob’ de Trap do Brasil em 2018/19. Com a explosão do hit “Plaqtudum”, os artistas conseguiram cravar seus nomes na história do trap brasileiro, assim como conseguiram viver da música fazendo bons números e fechando várias grades de shows. Mas, após brigas internas envolvendo os próprios membros do coletivo, o grupo veio dividindo opinião de fãs, até que novos nomes do Trap/Plug surgiram na cena, dando uma “nova cara” no território musical brasileiro.

Composto em sua maioria por jovens, o foco desse artigo são os novos “astros” que conseguem expor vivências sobre a criminalidade e sobre a dura realidade em que vivem, sem perderem a sua “essência”, e ainda com a possibilidade de viver única e exclusivamente da música.

Nomes como yfg.daddyyfg.nxbreyfg.flackoJovem AlgaMeno Tody, são a nova cara do Trap no Rio de Janeiro. Mas, por outro lado, existem artistas atemporais na “cidade maravilhosa” como MV BillFunkeroCartel MC’sGxldenCacife ClandestinoMarcão BaixadaFilipe Ret, o grupo VLDSain e todo o coletivo “Pirâmide Perdia”, que, consequentemente, foram um ponto-chave para a acensão do Trap no RJ. Trazendo uma visão totalmente direta sobre o cotidiano violento das favelas, juntamente com gírias e exibição do ‘lifestyle’ criminal nos clipes, a nova geração vem trazendo conteúdo explícito e sem medo de críticas.

“Cana bunda mole atrás dos meus cria
Mandando mensagem “vou te pegar um dia”
Mas tô preparado, choppa carregada
Quero ver tu vim me buscar nas casinha”

yfg.daddy — Love and Choppa

Sabemos que nas favelas cariocas, o som que predomina é o funk. Desde muitos anos atrás, o ritmo agita os bailes e representa o Brasil até mesmo em referências internacionais. Porém, agora, com a expansão do Rap nacional, MC’s de funk e rappers estão unificados como nunca, e o artista que mais revela a originalidade em sua estética, trazendo consigo o funk no estilo e o Trap nos trabalhos, é o Meno Tody.

Meno Tody em cena do clipe "Bailão"
Meno Tody em cena do clipe “Bailão”

M. Tody, que se intitula também como um “jovem tralha”, revelou que já possui vários trabalhos finalizados, e que pretende lançá-los em breve, inclusive uma música colaborativa com Felp22, do Cacife Clandestino e Jovem Dex (artista nordestino que vem recebendo bastante reconhecimento ultimamente). Com cabelo roxo e totalmente desinibido, Meno é um rapper incomum: traz uma sonoridade violenta, porém bem nivelada em ótimos tons melódicos, se inspirando em artistas internacionais como YoungBoy NBA, Quando Rondo, e Roddy Rich. Apesar de trazer uma sonoridade internacional, Meno Tody defende seu “estilo brasileiro”; com camisas de time e até cabelo disfarçado (visuais bastante comuns nas periferias), o que o artista vem apresentando lhe rende milhões de visualizações em semanas. Para maior compreendimento do tamanho de sua “explosão”, seu primeiro lançamento intitulado “Trapstar”, entrou na lista das ‘25 músicas virais do Spotify’.

A meca do TRAP

Embora a originalidade dos rappers cariocas tenham lhes rendido muitos views e novos fãs a cada dia, outros fãs se preocupam com o teor lírico apresentado pelas novas estrelas do Trap nacional. Apesar da precisão de tirar os ouvintes de sua zona de conforto ao apresentar um conteúdo tão explícito e real funcionar, alguns ouvintes defendem a ideia de que os artistas precisam “maneirar” em seus métodos de cuspirem “apologias” diretas, e é agora que entramos no teorema sobre o Rio de Janeiro estar se tornando publicamente a “Atlanta brasileira”.

Assim como em Chicago, apelidada de “Chiraq” para os mais íntimos e fãs da cultura da ‘drill music’ liderada desde 2011 por Chief Keef, Lil Reese, Fredo Santana (✭ 4 de julho de 1990 / † 19 de janeiro de 2018), entre outros, Atlanta possui alto histórico de violência e rivalidade entre gangues, e muito disso conta na musicalidade local. Desde a década de ’90, o mundo do Rap vive sendo abalado por mortes precoces de jovens artistas com enorme talento, vindo em sua maioria, de periferias, e a precaução não deve ser deixada de lado em um país como o Brasil.

Rapper Gucci Mane, oriundo de Atlanta. Considerado por muitos o “pai do Trap”.
Rapper Gucci Mane, oriundo de Atlanta. Considerado por muitos o “pai do Trap”.

Assim, os fãs estão comentando “RJ nova Atlanta” em quase todos os lançamentos dos rappers cariocas que estão em acensão no momento; e faz muito sentido, visto a estética das líricas trazidas de ‘ATL’, o berço do Trap, e da extravagância colocada propositalmente nas vivências e referências relatadas nas músicas dos trappers nacionais do Rio. As estatísticas de violência em 2015 comprovaram: o Estado carioca possuía uma taxa de 24,1 homicídios por 100 mil habitantes, já a cidade de Atlanta, superava: a marca era de 47,4 casos de homicídios registrados a cada 100 mil habitantes… E vale dizer que o tamanho das duas cidades foram levados em consideração também.

No fundo, os fãs querem ver a prosperidade que os artistas irão alcançar com a fama, se esquivando dos malefícios da criminalidade e das desavenças causadas nas ruas. Mesmo com uma sonoridade menos lírica, o Trap não deixa de ser importante: é a versão nua e crua do cotidiano das periferias, é a sujeira do “jogo” administrado por políticos e autoridades corruptas, é a ostentação dos amantes da criminalidade. Talvez, em um futuro próximo, teremos como “carro-chefe” das paradas musicais, a pura essência poética das ruas: o Trap.

Ouça a playlist “NovAtlanta”, feita pelo autor do artigo, com as músicas da nova geração do Trap carioca.