Os hábitos de consumo da música vem mudando em uma velocidade absurda e, dependendo da sua idade, esse movimento talvez já esteja normalizado. Se você vem de uma era pré-internet, em que a música era consumida no rádio e, em um nível de consumo pessoal, via vinil, fita cassete e CD, depois evoluindo para mp3 e streaming, talvez essa visão de mudança esteja mais explícita. 

Ao mesmo tempo, o consumo de audiovisual mudou e, se antes a TV imperava, hoje serviços como o Netflix reinam. Isso tudo pra abordarmos os reality shows, surgidos na televisão, aberta e fechada, depois migrando fortemente ao streaming com temas dos mais diversos, chegando finalmente ao rap. Sim, o rap tem seu próprio reality de respeito, Rhythm & Flow.

Se você ainda não assistiu, não se sinta deslocado, já que ele é bem recente, do dia 9 de outubro, e não recebeu o hype que Hip-Hop Evolution e outras produtos que falam de rap ou da cultura hip-hop receberam. A série já se destaca por seus apresentadores, a trinca Chance the Rapper, representante de Chicago, Cardi B, que curiosamente “nasceu” de um reality (Love & Hip-Hop, da VH1), direto de Nova Iorque e T.I., o rapper veterano de Atlanta considerado por muitos como o pai do trap. 

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Chance, The Rapper; Cardi B e T.I. – os jurados da primeira edição do Rhythm + Flow

Tendo cada um uma característica bem definida, sendo Cardi a bem-humorada, T.I. o coach do rap e Chance como o mano tranquilão que manda a real (mas que se emociona com os rappers que falam de Jesus que nem ele), os três artistas começam a jornada buscando em suas cidades novos talentos para participar desse reality. Não contentes, convidam algumas lendas locais para participar como Lupe Fiasco (Chicago), Snoop Dogg (L.A., onde as próximas fases desse rolê aconteceram), Killer Mike (Atlanta) e Fat Joe (NY), isso sem falar da emocionante participação de Nipsey Hussle (R.I.P.), tudo só na primeira fase.

Você deve estar pensando “certo, daí a Cardi, o Chance e o T.I. fizeram um esquema meio The Voice, acharam uma galera talentosa, mas como eles escolheram o melhor rapper nessa fita ae?”. Essa pergunta é fácil de responder porque já vi o programa, mas se não tivesse visto, a dúvida ia ser legítima. Um MC pode se destacar de algumas formas, entre elas pelo seu flow, pelas ideias desenvolvidas nas rimas, pela presença de palco, alguma habilidade específica como mandar bem no improviso, no speed flow, na escolha de beats, pela estética nos clipes, enfim, cada um chama a atenção como pode mas, no geral, é preciso ter uma combinação de habilidades para se destacar no rap.

O reality escolheu uma rodada de audição em que os aspirantes a MC mostravam uma música de composição própria, depois pela sua performance num cypher, seguido de batalhas de freestyle, desenvolvimento de um clipe e uma música, um som utilizando sample, uma colaboração com um artista consagrado e, por fim, uma composição original produzida por um beatmaker renomado em uma mega apresentação para público, jurados e convidados. Pausa. Pense no seu/sua MC favorito, ele tem todas essas habilidades? Ele sobreviveria a uma competição dessas? Sinceramente, acredito que não. Só que mesmo levando esses MCs ao extremo, a competição rola legal, contendo um grau de adrenalina que poucos reality shows de música conseguem, o que dá uma moral para o show.

Mesclando competidores brancos e negros – lembrando que nos EUA o rapper branco não tem ⅓ da moral que os brasileiros tem aqui e precisam se destacar muito pra serem ouvidos (só que depois que furam essa bolha e chegam ao estrelato, parecem precisar se esforçar bem  menos para conseguir números expressivos de venda de música e shows) -, sem muita distinção de idade ou gênero, a competição coloca todo mundo no mesmo balaio e, prova a prova, vai eliminando uma quantidade dos 30 rappers participantes. 

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Snoop Dogg foi uma das atrações da primeira temporada da competição

Entre eles, todo tipo de MC, representantes do rap de mensagem, da lírica poética, outros com uma vibe anos 1990 bem boombap, muitos trappers e um ou outro tentando algo original como um jovem que apareceu com uma cabeça de boneca pendurada na roupa (Yung Water) ou outro, que até foi longe na competição, chamado Old Man Saxon, que se apresentava de terno e tentava trazer a classe do homem das antigas para suas apresentações.

Diferente dos reality de TV, esse foi lançado em três partes, o que pode ter limitado o sucesso do programa. Não sei você, mas o que costuma emocionar nesse formato é o crescimento dos participantes, dando tempo para conhecer a história de cada um, simpatizar com seus preferidos e começar uma torcida. Todos são assim, de MasterChef a, sei lá, BBB. E funciona, tanto que o formato segue firme e forte, como se fosse uma novelinha que o povo ama odiar (ou amar mesmo). A cada parte, três novos episódios, lançados consecutivamente dias 9 de outubro, 16 e depois 23, apresentando as finais. 

https://www.youtube.com/watch?v=_Ogn-71aeNQ

Outro fator que costuma gerar polêmicas nesses formatos são as escolhas de quem fica ou sai do show. Se você já viu ele por completo e puxar na sua memória, deve lembrar de um ou outro ali que deveria ter ficado e se foi, se ainda não viu, com certeza vai passar por essa experiência. Do meu ponto de vista, nenhuma grande injustiça aconteceu no programa, mas um ou outro MC poderia ter ficado mais tempo, mostrando mais a que veio, só que ficaram pelo caminho por terem perdido uma batalha, performado mal em uma cypher ou dirigido um clipe frio e vazio. 

Mas que tipo de artista estamos exigindo aqui com tantas habilidades? Até acredito que artistas com 10 a 15 anos de estrada tenham desenvolvido habilidades extra que permitem que eles façam um beat, improvisem a letra quando os versos somem da cabeça durante um show, escrevam um roteiro de um de seus clipes, no entanto, um rapper crú já está no top do game se minimamente tiver habilidade na rima. Faz sentido?

O jeito é não levar isso tão a sério e olhar pro entretenimento que Rhythm & Flow entrega. E não me entenda mal, eu gostei da série! No geral, o público e a crítica pareceram ter curtido também. Tanto que até ganhou um prêmio, o HipHopDX Awards 2019, como Melhor Show de TV do Ano. A série também tem outra diferença brutal para os artistas em relação a outros similares: o vencedor não ganha um contrato com gravadora e sim a quantia de 250 mil dólares. Interessante por um lado, pois permite que o vencedor use seu cash como achar melhor, mas não fomenta uma nova carreira promissora, mesmo oferecendo experiência e uma exposição global que só a Netflix poderia oferecer. Produzir música é caro e distribuir é quase impossível sem ter o recurso de uma major, as grandes gravadoras, envolvidas no processo, uma vez que dominam esse jogo. Do meu ponto de vista, ponto negativo para a série.

OK, se você não assistiu ainda, hora de parar porque vem chuva de spoiler.

Desde o começo, meu preferido sempre foi o que acabou ganhando a competição, mais por quem ele lembra do que por sua história ou seus vícios na rima, usando a mesma muleta toda santa vez que mescla versos em espanhol e inglês. Não tem como negar que ele foi o participante mais regular, mostrando habilidade em quase todos os quesitos, uma tranquilidade que destoava de outros jovens MCs emocionados com o momento, e uma experiência com música e da própria vida que pareceu vir de uma estrutura familiar quase impecável e de sua idade, já que era um dos mais velhos. Sim, estou falando de D Smoke, vencedor da edição um de Rhythm & Flow, que realmente brilhou aos meus olhos na apresentação final, em que mostrou sua música “Last Supper” em uma apresentação digna de Grammy ou VMA MTV. 

Tendo um quê de Kendrick Lamar, Smoke D também é de Los Angeles, mas não da cidade de Compton e sim de Inglewood, o rapper é do tipo mais quieto, mas com energia potente na rima, sempre bem arquitetada com punchlines bem pensadas e tudo isso muito bem amarrado por um flow suave e beats bem selecionados.

Se você foi impactado pelo rapper como eu fui, deve ter visto que algumas músicas e clipes foram lançados pós-competição e o nível não baixou, segue quente. Talvez o próximo passo para D seja uma colaboração de peso, que poderia inclusive acontecer com Cardi B ou Chance the Rapper, e uma sequência de singles que dariam continuidade ao seu trabalho. Infelizmente não vejo o rapper furar esse bolha e chegar ao mainstream, mas fica aí uma bela jornada retratada em Rhythm & Flow e além. 

Isso não quer dizer que outros artistas não tenham se destacado como Londynn B, jovem mãe que mostrou estilo e força em suas letras de trap, além de muita confiança e um potencial pop acima de todos os outros. Mas terminou em terceiro. Troyman, que ficou em quarto lugar, também se destacou por sua confiança e músicas perfeitas pra festa, energia para grandes shows e confiança de uma artista já consagrado. 

Outros competidores poderiam ser melhor orientados e até ter alguma carreira como o jovem carismático Jae Ham ou a força da rapper Beanz, a intensidade da MC Rae Khalil, que chegou mostrando uma potência na rima mas que optou por uma agressividade na fase de batalha que parece ter sido a mais, roubando sua energia para os próximos feitos, e o cômico Nikee Turbo, que lembrou Danny Brown, só que com muito menos habilidade lírica e um passinho de dar inveja que era sua assinatura. Esse último era só zoeira.

Será que a Netflix vai apostar em uma nova temporada? Se sim, quem serão os novos juízes e os rappers participantes? Essa e outras perguntas devem ser respondidas em breve e pelas críticas encontradas na web, a sensação é de que o resultado foi positivo pelo conteúdo original que foi criado. Duas curiosidades finais: um dos produtores executivos é John Legend, que também aparece nos créditos do The Voice, e a palavra discriminatória proibida na America, n*gger, foi liberada, sem nenhum bip censurando, como licença poética para que os rappers apresentem sua rima sem preocupação.

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