#Discosde1998: He Got Game traz Chuck D rimando como MVP,  mas deixando título escapar

Se fosse um time, a trilha do filme faria um ótimo campeonato em 1998, mas comparado aos demais lançamentos do Public Enemy ao longo de 20 anos, acabaria ficando de fora do Hall da Fama

No ano em que Michael Jordan se consagrava como um dos maiores jogadores de basquete do planeta, após vencer seu sexto título consecutivo pelo Chicago Bulls contra o time do Utah Jazz, estreava nos cinemas mais uma obra impactante de Spike Lee, “He Got Game”, que chegou por aqui como “Jogada Decisiva”.

Trazendo no elenco nomes como Denzel Washington, Mila Jokovic (da série “Resident Evil”) e o astro hoje aposentado da NBA, Ray Allen, o filme é menos sobre o jogo em si e mais sobre os meandros, contando a história de Jake Shuttlesworth, detido há 15 anos cumprindo pena na prisão. Ele recebe uma suspensão temporária para cumprir uma missão dada pelo governador do estado: aliciar seu filho, Jesus, astro de basquete da liga escolar com várias ofertas de faculdades top de linha, para se juntar à faculdade do estado. No entanto, essa ajuda forçada de Jake para convencer seu filho a mudar de opinião acaba promovendo uma segunda chance para uma conturbada relação familiar.


Sempre lembrado nas listas de melhores do gênero, o filme mistura o melhor da narrativa de Spike Lee e a interpretação de Denzel, mas ainda se destaca pela trilha, que fica por conta de ninguém menos que Public Enemy
. Assim como em “Do the Right Thing” (“Faça A Coisa Certa”, 1989), a música veio com potencial para se tornar tão popular quanto a película, lançada pela Def Jam Recording em abril de 1998. No entanto, o disco até foi bem recebido pela crítica da época, porém vendeu abaixo do esperado, o que garantiu a vigésima sexta posição na lista Billboard 200 Albums – o que, cá entre nós, não parece tão ruim assim.

O grupo passava por transformações na época, perdia o DJ Terminator X, que já se preparava para sua aposentadoria, e assumia DJ Lord, que despontava por sua habilidade, o que garantiu inúmeros títulos de turntablism, incluindo destaque no DMC, maior campeonato de DJs do mundo. O rap também passava por suas mudanças e via discos como The Miseducation of Lauryn Hill (Lauryn Hill), Hello Nasty (Beastie Boys), Mos Def & Talib Kweli are Black Star”(Black Star) e Aquemini (Outkast) ganharem destaque e apontarem um novo caminho para o gênero, mais melódico e menos político – ou ao menos sendo bem menos explícito nesse sentido.

Nesse momento, o rap já era visto como uma música pop, mainstream, e não mais como uma música combativa como ocorreu na primeira parceria de Public Enemy e Spike Lee, em “Faça A Coisa Certa”. O álbum trazia um novo desafio: o grupo foi observado de perto por advogados em relação aos samples usados, uma vez que nesse ponto da história nenhuma obra que não tivesse sido liberada por seu autor poderia ser utilizada. No entanto, nada disso tira o peso desse disco, que traz Chuck D rimando como um MVP (termo da liga norte-americana de basquete, a NBA, para o jogador mais valioso, do inglês Most Valuable Player) e atuando em 10 das 13 músicas da trilha.

Mesmo que você não acompanhe a NBA, talvez saiba que o diretor Spike Lee é fanático por basquete, particularmente por seu time, o New York Knicks, e encontra nessa trilha o parceiro perfeito para falar sobre o assunto. Aqui, Chuck D pega a licença poética para seguir trazendo seu conteúdo político sempre contundente. Em “Ressurection”, a crítica chega pesada ao próprio rap: fala das diss, punchlines sem sentido e até dá um salve pro Brasil (“Shot the pill while I drop skills up in Brazil”). Em “Is Your God a Dog”, Chuck D inunda o ouvinte com metáforas do jogo, que atingem seu ápice na trinca “Politics of the sneaker pimps”, “Whats You Need I Jesus” e “Super Agent”, trazendo questionamentos pesados ao jogo e a relação dos jovens talentos negros com brancos, donos de marcas esportivas ou não, que faturam, enquanto o negro segue tendo seus problemas de sempre, só que agora ganhando muito dinheiro. Destaque também para “Shake Yo Booty”, que traz Flavor Flav em uma rima solo.

Analisando 20 anos depois, pode-se dizer que o filme foi ganhando mais moral com o passar do tempo, o que parece não ter acontecido na mesma intensidade com a trilha, que em muitos debates acaba de fora da lista de melhores discos do grupo Public Enemy.

Assim como o personagem de Denzel Washington, Jake Shuttlesworth, o trio Chuck D, Flavor Flav e DJ Lord merece uma segunda chance para que seu real valor seja revisto por crítica e público, abrindo espaço para que a obra esteja então entre as mais relevantes de um dos grupos essenciais nesses 45 anos de história do hip-hop.

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