#Discosde1998: Fui proibido de ouvir o disco “Eu Tiro É Onda”, do Marcelo D2

Me lembro quando pequeno, devia ter uns 9 anos, acompanhava algumas coisas que meus irmãos mais velhos ouviam e grande parte disso era rap. Foi com eles que acabei conhecendo esse mundo, artistas, cultura, respeito.

E lá por 1998 ou 1999, essa época aí, ficou bem marcante pra mim um dado momento em que o Daniel (meu irmão mais velho) ouvia o disco do Marcelo D2, “Eu Tiro é Onda”, e evitava que eu tivesse contato com esse CD. Uma vez meu irmão disse isso aqui pra mim: “Tu não pode ouvir esse CD. Só quando crescer!”

Não entendia bem o porquê daquilo

Agora, sei perfeitamente do que ele estava querendo me privar. De algumas letras do D2, como essa aqui: “E o que acontece, eu vou contar, quando eu fumo marijuana, como eu fico: chapado”. E essa era a treta do final dos anos 90, que o Planet Hemp e o D2 assopravam pro ar.

“Tabaco ou maconha, o que te envergonha/
Eu não sou menos digno porque fumo maconha”
– Trecho de “Mantenha o Respeito 2”, faixa 2 do “Eu Tiro É Onda”

O tema da legalização era mais polêmico (na minha percepção) que hoje em dia. Foram presos por isso em 97 (por apologia a maconha). E como não podia faltar, já que a posição sobre esse assunto é ainda forte na banda e com D2, muitas letras eram explícitas nessa temática e eu, criança de 9 anos, mal podia ouvir as faixas de “Eu Tiro é Onda”. Afinal, o Daniel não deixava. Vai vendo.

Depois de um tempo, ouvi o disco!

Quando pude me aprofundar nele uns anos depois, acabei curtindo demais, algumas faixas eu tenho até hoje como algumas das mais foda do rap. Mas falo delas depois. Antes vou destacar aqui algumas falas do próprio D2 que saíram na época em jornais sobre a produção do disco e como ele foi importante pro rap nacional na questão de explorar o samples de artistas aqui do Brasil e recriar novas músicas misturando o que ele difundiu como sendo a mistura do hip hop com samba.

Pra que samplear os gringos se a gente pode explorar os artistas brasileiros?

Numa matéria da Folha de S.Paulo, encontrei uma falas do D2 muito foda. Julgo importantíssimo repassar isso aqui só pra tu entender a importância do que é o sample e como é indispensável a gente ouvir mais a nossa música brasileira, explorar a nossa cultura, o que é feito aqui, o que é da gente.

Nessa matéria da Folha, o D2 diz que é “o primeiro disco brasileiro de rap que só usa samples de música brasileira”. Ele usou samples de Sérgio Mendes, Baden Powell e Vinicius de Moraes nesse disco, que, aliás, foi produzido pelo DJ Nuts e pelo Zegon. Trampo muito foda, com uma textura incrível e bem áspera, se é que entendem.

Ah, se você não sabe o que é sample, aqui vai uma breve explicação: recortar trechos de músicas prontas e criar uma música nova, com outros instrumentos em cima e manipulação e recortes da música original. Isso é sample, polêmico e classe demais! Eu particularmente sou muito fã de samples.

“Não toco como antigamente
com uma banda de samba
Hoje a coisa é diferente
É o DJ e o sample”
– Trecho de “Samba de Primeira”, faixa 6 de “Eu Tiro É Onda”

Continuando com mais falas do jovem Dê Dois: “Todo mundo sampleia James Brown. Quem vai samplear Tom Jobim? Tem que ser a gente”. E segue: “É mais fácil samplear gringo, eles estão acostumados. Aqui, nem sabem o que é sample. Íamos usar um diálogo do Tom com a Elis Regina, eles dizendo ‘Vamos prestar atenção nesta bosta’, mas a família dele não deixou, achou que era falta de respeito”.

Pra você entender que aquela fala ali é de 1998 e que ainda hoje, 20 anos depois, é complicadíssimo receber autorização de uso de sample. Muita gente continua sem entender o que é isso. Hey, vamos prestar atenção nesta bosta? Libera os samples! (e também a outra parada lá, só pra não perder o trocadilho aqui. Há.)

As Preferidas

Como mencionei antes, aqui vai uma lista de destaque de algumas que eu acho muito foda nesse disco e são elas:

  • “1967”, uma “autobiografia” rimada, que fala das origens do Marcelo. Sampleando “Canto de Ossanha”, de Baden Powel.
  • “Eu Tiro é Onda”, com participação de Shabbaz e algumas linhas do D2 que gosto muito como “Com dinheiro é muito fácil, todo mundo é feliz. Eu quero vê tira onda sem dinheiro como eu fiz”.
  • “O Império Contra-Ataca”, com participação de Black Alien, BNegão, Jackson e Speed Freaks.
  • “Espancando o Macaco”, um instrumental finíssimo e tranquilizante.
  • “Batucada”, com coral de As Gatas e um baita sambão com hip hop, uma das mais foda na minha opinião.

Eu tiro é onda, 20 anos depois

Esse é um disco que bate bem por aqui, com uma sonoridade única e que tem a textura da época, nos beats, voz e toda a mixagem do disco (por conta de Carlos Bess e duas faixas, “Eu Tiro é Onda” e “Batucada”, por Mario Caldato Jr.). Vale a pena ouvir o primeiro disco solo do Marcelo, uma pena que ele não está por completo na internet, não encontrei nas plataformas e no YouTube tem só algumas músicas. Uma pena. Mesmo. Agora, tenho que ouvir do CD físico original, aquele mesmo que o Daniel jogava no CD Player e me proibia de ouvir no final dos anos 90.

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