Por que eu, mulher, não fui ao Festival Batuque 2015

image

por Carol Patrocinio

Já há algum tempo tomei uma decisão pessoal: não frequento eventos que só tenham homens em posição de destaque. Explico: as minas sempre estão lá; a produção é feita por elas, o corre do dia a dia, conseguir água, manter as atrações nos horário, fazer fotos, ser gentis e educadas, aguentar olhares indevidos e fazer de conta que nada aconteceu. As minas sempre estão lá. Atrás. Depois da cortina. Naquele lugar em que ninguém vê. Como se fosse fantasmas que fizessem, num passe de mágica, tudo dar certo. As minas correm. Muito.

Mas e na frente? E em cima do palco? E sorrindo para fotos que acompanham textos falando sobre seu talento e não sobre como elas “embelezaram” a noite? As minas sempre são negligenciadas. Não é como se o rap ou qualquer outra área não tivesse representantes femininas tão boas quantos os caras ou melhores que eles. Existem um número imenso de mulheres fazendo um trabalho foda em todas as áreas, mas a gente nunca vê essas mulheres tendo espaço e reconhecimento como os caras. Mesmo quando presentes, as mulheres não recebem o mesmo destaque. Isso não te deixa, como mulher, incomodada?

Se um evento me diz que não conseguiu encontrar nenhuma mulher para subir ao palco em um evento de dois dias e 8 shows, por que ele seria um evento que se importa com a minha presença? Por que esse deveria ser o evento que eu escolho para gastar as minhas horas livres?

Dói não participar desse momento? Muito. Dói não encontrar as pessoas queridas que a gente não consegue ver sempre e tromba no Batuque. Dói não ver shows que a gente curtiria ver. Mas dói bem mais ver um monte de mina fazendo um corre absurdo para conseguir gravar, pagar beat, aguentando um bando de caras dizendo que ela só tem algum destaque porque é gostosa, suportando homens a desrespeitando de diversas formas durante o caminho e olhando para o decote ou a bunda dela enquanto ela trampa.

Eu não me sinto representada por um evento que não se dá o trabalho de colocar mulheres em destaque. Eu me sinto bem desrespeitada, na verdade. Principalmente no ano da Primavera das Mulheres. Principalmente em um ano em que a cena feminina vem crescendo. Principalmente depois de ver um monte de homem reclamando de evento organizado por mulheres ter apenas mulheres em papéis centrais.

Os homens estão no centro do rap desde sempre. As mulheres já ouviram muito absurdo, já foram tratadas como objeto por tempo demais, já foram desrespeitadas mais do que poderiam suportar. E não há ninguém que não saiba de tudo isso. Então qual o motivo para manter as coisas como estão? Qual o motivo para não abrir as portas? Qual o motivo para fazer de conta que o rap é feito apenas desse pequeno grupo de homens? Podem falar de agenda, de lançamentos, de público… Mas e a responsabilidade de mudar o mundo? Não é sobre isso o rap? Não é esse o que leva milhares de jovens ao hip hop todos os anos? Não é sobre a esperança e o desejo de ser enxergados? Bem, se essa luta se restringe aos homens, eu e vocês, mulheres, não somos bem-vindas em eventos assim.

Eu não fui ao Festival Batuque 2015 porque sou mulher e quero assistir pessoas que vivem as mesmas merdas que eu tendo voz, sendo respeitadas. Eu não vou mais a nenhum evento em que mulheres sejam escondidas atrás das cortinas. Eu não vou mais apoiar esse rap centrado no homem como se fosse algo por acaso. E espero que mais pessoas comecem a pensar nisso e questionar essas escolhas. Não dá mais.

*foto: Karol Conka @ Festival de la Cité 2014 (DeGust / photo on flickr)

Dê o play numa seleção de minas que fazem e fizeram parte da história do rap nacional: