#Especial1998: Os velhos e novos hábitos de consumir música

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– por Robson Assis

Quem gosta de ouvir música passou por algumas fortes mudanças nas duas últimas décadas. Se no final dos anos 90 a gente não esperava ter um aparelho do tamanho de um pager com mais músicas do que conseguiríamos carregar em discos físicos, agora na metade de 2018 não conseguimos viver sem as plataformas digitais como o Deezer e o Spotify.

Quando deixou de ser moda usar aquele player de CD todo desengonçado nos bolsos, entrou em cena o MP3 Player, um pequeno aparelhinho que, embora hoje seja tão inimaginável quanto os discmans, comportava mais músicas do que você pretendia levar na mochila, por exemplo (e imagina ter que levar todas as caixas de CDs se debatendo nas costas?).

A popularização da banda larga, por volta de 2003, tornou também bastante comuns softwares de download e compartilhamento de música e vídeo como o Kazaa e o Soulseek, onde era possível baixar discos em mp3 de usuários espalhados pelo mundo inteiro. O Soulseek, inclusive, existe até hoje (just saying).

Claro que todos estes movimentos trouxeram uma crise sem precedentes para o mercado fonográfico. Se as pessoas conseguiam baixar e ouvir qualquer disco a qualquer momento, qual era o papel das grandes gravadoras, afinal?

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A partir daí, os artistas começaram a entender o mercado de forma mais ampla e com um protagonismo mais forte. Algumas redes sociais como o Fotolog e o Myspace abriram incríveis possibilidades de se conectar ao público de uma forma antes impensável. Foi falando a língua do próprio público que artistas como Emicida, Kamau e muitos outros conseguiram conquistar espaço.

Ao mesmo tempo, pululavam pela internet blogs e fóruns de download de música. Ouvir as discografias do Tupac, por exemplo, parecia até fácil demais. Você tinha todos os arquivos salvos no seu computador, transportava para o seu iPod ou para qualquer outro player portátil de sua preferência (alguém lembra do Zune? Saudades eternas).

Por um grande período a pirataria criou, especialmente nos artistas do mainstream, certo descontentamento e repulsa. As banquinhas de camelô começaram a vender discografia dos Racionais por 5 reais e coletâneas diversas por valores próximos. O Piratebay e programas de download via torrent eram bastante comuns e facilitavam (talvez até hoje facilitem) esse mercado ilegal.

As plataformas digitais e os acumuladores

Em paralelo a isso, começaram a nascer as plataformas digitais como o Spotify, Deezer e iTunes store, embora elas só tenham se popularizado como sérios concorrentes à pirataria em meados de 2014, pelo menos aqui no Brasil.

Esses novos modelos de compartilhamento de música apareceram em versões gratuitas e premium, sem anúncios. Todos os discos são disponibilizados online, em um momento da história da humanidade em que estar offline é basicamente estar fora do mundo (você só chegou a este texto porque acessou a internet de algum lugar, certo?).

Com grandes e poderosos contratos, estas plataformas começaram a levar ao público uma diversidade incrível de conteúdo em uma nova era onde ter a posse do arquivo em MP3 já não faz mais tanto sentido assim. Claro que isso gera também diversas discussões sobre a imaterialidade da música e o fato de que ser um colecionador de discos, fitas ou CDs em 2018 passou a ser algo extremamente de nicho.

Ok, now what?

Outra parada extremamente importante neste sentido é o fato de que os smartphones acabaram dispensando o uso de players individuais, especialmente na hora de ouvir música. Afinal de contas, andar com o seu telefone no bolso hoje em dia quer dizer andar com um player de música, uma câmera, uma biblioteca digital, um calhamaço de jornais e revistas e toda a sua agenda de amigos e conhecidos.

Portanto, nos últimos anos os artistas precisaram começar a reinventar suas estratégias para se manter com alguma autoridade no mercado. Foi então que muitas ações virais tomaram de assalto a cena rap no mundo inteiro. Podemos citar como exemplo o 50 Cent que vendeu seu disco “Animal Ambition” (2014) online aceitando bitcoins e, no começo deste ano, descobriu que sua conta de criptomoedas tinha US$ 400 mil captados com a venda do CD. E aqui no Brasil, podemos citar o Rael que lançou o EP “Diversoficando” em muros da cidade de São Paulo que tinham apenas o seu nome e uma entrada de fone de ouvido para que as pessoas plugassem seus próprios fones e ouvissem o novo disco.

Todo esse panorama faz a gente pensar que chegamos numa evolução talvez sem precedentes no mercado musical. Quando comecei a escrever sobre esse assunto, minha primeira pergunta foi “ok, mas o que acontece depois?”. Neste momento, artistas do mundo inteiro conseguem subir suas músicas para essas plataformas e inclusive receber por isso. Ao mesmo tempo, ter a sua música disponível no mercado digital não está em nada relacionado à notoriedade.

O que consigo prever para o futuro é que vamos ter uma outra guinada na forma de ouvir música em qualquer lugar. Prevejo um dia em que você vai abrir a geladeira e ela vai te recomendar o novo do Drake.