O Pagode 90 é Samba e o Samba é negro

O pagode dos anos 90, uma época marcante de vários sucessos que embalaram gerações e foi trilha sonora para muita gente. Quem nunca se emocionou ouvindo Exaltasamba, Art Popular, Raça Negra, Katinguelê? Desses grupos nasceram canções uma mais linda que a outra, mas não podemos esquecer jamais que essa época tem a sua complexidade e seu contexto ancestral.

O samba, desde sua primeira gravação aqui no Brasil no começo do século XX, foi um dos gêneros que mais impactou a sociedade brasileira.  Mas foi nos anos 90 que o segmento atingiu o seu apogeu de sucesso e oportunidade de visibilidade. Foi nesse momento também que o termo “Pagode”, através da indústria musical foi nomeado como gênero, sendo que o termo “pagode” era adjetivo utilizado para indicar que era o espaço onde acontecia o samba.  Paulinho da Viola cita em seu samba “Pagode do Vavá”:

“Domingo, lá na casa do Vává teve um tremendo pagode que você não pode imaginar”.

Esse trecho da letra revela que ao utilizar o conceito pagode, o intuito era criar a ideia de desconexão da relação das gerações anteriores do samba com as propostas musicais dos anos 90. Algo no entanto difícil, tendo em vista em qualquer pagode dos anos 90 vai se ouvir um cavaco, um pandeiro, um tantã e um repique, instrumentos fundamentais usados nas rodas de samba, rodas de samba que têm uma ligação ancestral africana. Como cita o cantor Salgadinho, na podcast fórmula do samba “O Samba é pra música brasileira, como R&B é pra música norte americana. Ou seja, o mundo respira a música da África”:

Foi nos anos 90 que o samba atingiu o grande público, independente da faixa etária. Enquanto músicas românticas como “Me apaixonei pela pessoa errada” e “Tudo fica” Blue explodiam, sambas como “Amarelinha”, “Brincadeira de Criança” e “Caçamba” atingiam o público infantil. Quem não se lembra dessas músicas tocando nos aniversários da vida, enquanto se comia um pão com carne maluca e refrigerante? Estas músicas promoviam diversões, descontrações em vários momentos a diferentes grupos culturais e sociais.

O grupo Molejo foi um dos principais a alcançar também o público infanto-juvenil. Créditos: Reprodução.

Como dimensionar o momento em que o sucesso do samba acontece? Para esta reflexão é bom voltar no tempo.  Nas décadas anteriores, nas periferias da região sudeste do país, o samba era um ritmo de grande consumo. Vários eventos espalhados de artistas renomeados do samba ocorriam, além dos vários festivais de pagode que aconteciam nas escolas de samba, festivais dos quais vários desses grupos de sucesso do pagode 90 surgiram. Péricles cita na entrevista dada a Lázaro Ramos no programa Espelho de que “O ‘bum’ do pagode foi em meados dos anos 80 e que o pagode realmente viveu o que o funk vive hoje”

Foi através de gravadoras independentes que os primeiros discos de sucesso do pagode 90 surgiram, destacando como referência o disco do Grupo Sensação “Mais uma paixão, produzido pela Chic Show. Negritude Junior “Jeito de Seduzir” gravado pela Zimbabwe, Katinguelê “Meu Recado” Produzido pela Choppapo Produções.

“Esse samba é pra gente da gente”

Com esses sucessos, não demorou muito para que o samba atingisse os veículos de comunicação da época. Quem não tem na memória afetiva registro de ver o Raça Negra no Domingão do Faustão e o Só Pra Contrariar no Domingo Legal? Foi com estes sucessos nas periferias e com as primeiras produções independentes que esses artistas tiveram a oportunidade de fechar excelentes contratos com gravadoras multinacionais da época.

Grupo Sensação, um dos destaques do Pagode dos anos 90. Créditos: Reprodução.

Isso prova o quanto que a cena do pagode 90 não aconteceu do nada. Ela teve sua construção com o tempo e conforme as remodelações iam ocorrendo no segmento, o samba se tornava cada vez mais forte nas periferias e automaticamente o Brasil iria sentir toda essa potência uma hora. Claudinho Oliveira cita numa entrevista dada á formula do samba que “Tinha muitos selos em São Paulo que fizeram muito bacana e que de alguma maneira abriu a porteira para um monte de grupo chegar e mostrar seu trabalho”:

O processo de Representatividade

O processo de representatividade de artistas negros na grande mídia não ocorria de formal, plural como ocorreu nos anos 90 através do rap e do samba. Há tempos atrás apenas alguns grandes artistas negros(as) se destacavam na grande mídia em meio de milhares artistas brancos. Mas nos anos 90 a participação dos artistas do pagode foi fundamental porque juntamente com o rap, o samba foi um segmento que trouxe uma representatividade muito maior ao povo da periferia. Artistas de grande maioria negros, aparecendo na televisão muito bem vestidos e sorridentes trouxeram uma visibilidade e a oportunidade do negro se visto na mídia com uma outra perspectiva.

O Samba e o Rap sempre andaram juntos

Quem não se lembra do crossover feito entre Racionais e Negritude Junior na música “Fim de semana no parque” e na música “Gente da Gente”?

Essa ligação não é à toa, o samba e o rap são de origens do gueto, filhos da mesma mãe, a mãe África. Essa ligação foi de extrema importância na construção de uma representatividade e conscientização de identidade negra para o povo.  Tanto o samba quanto o rap, são considerados a voz da periferia, a voz dos menos favorecidos.  E essa representação se difundiu ainda mais nos anos 90, onde ambos estavam no auge do sucesso e visibilidade. Além de grande parte dos primeiros sucessos da década e do gênero, terem sido gravados pelas mesmas gravadoras independentes. Visto que vários eventos feitos por essas produtoras independentes tinham nas suas atrações principais grupos de rap e de samba. A periferia nos anos 90 transbordava de samba e rap.

Mano Brown, Eliane Dias e Netinho de Paula. Créditos Arquivo Pessoal/Revista Trip

O Pagode 90 é “muita treta”!

Quando aprofundamos a análise no conceito musical sobre pagode 90, vemos a gama de complexidades na forma de executar o samba, esta característica foi mantida para tornar o segmento do samba ainda mais forte. Foi no Estado de São Paulo que grande parte dos sucessos e artistas do pagode 90 se concentravam.

A Banda Raça Negra deve ser citado com muita reverência e com a sua importância. A banda é um dos principais responsáveis no crescimento do samba e explosão nacional na década de 90. A música “É tarde Demais” entrou até pro Guiness Book sendo a música mais tocada em único dia no mundo.

Outro exemplo é o Grupo Art Popular, que com elementos da música norte americana e com referências de grupo como, Fundo de Quintal, Originais do Samba, trazia em suas apresentações ao vivo, aparições com coreografias e vestimentas chamativas e estilosas. Além de todos as canções de sucesso que grande parte composta pelo grande gênio da música Popular Brasileira, Leandro Lehart.  

Como esquecer daquela sequência de Partido Alto do Grupo Sensação? Um grupo que representa como ninguém o samba paulistano, com uma linguagem musical também inspirado no grupo Fundo de Quintal, “recheado” de poesia e malandragem. Dentro dessa poesia e malandragem embalados nas vozes de Marquinhos e Carica, o grupo tinha uma peculiaridade no quesito percussão. Gazu, João, Tuta e Cogumelo foram percussionistas que criaram o seu legado dentro do segmento e trouxeram um jeito autentico de tocar.Assim como o Fundo Quintal, Grupo Sensação era o tipo do grupo que você tinha que ouvir várias vezes para conseguir decorar os arranjos e variações musicais feita por esses músicos.

Quem não se lembra do Grupo Katinguelê e Exaltasamba? Que além de fazer moda utilizando óculos escuro na testa e roupas coloridas no palco, eram grupos que traziam uma pintada de romantismo muito grande no samba. Eles trouxeram sucessos daqueles que você canta com olho fechado e com a mão no peito.

Se você quisesse ver uma apresentação de alta qualidade, não tinha como não colocar as apresentações do Grupo Negritude Junior, que muitos citam como Earth Wind and Fire do Pagode. Uma apresentação que transbordava alegria e auto astral, além de ter a demonstração de ser um grupo rico em musicalidade. Todos os integrantes tocavam mais de um instrumento, além da estética musical do grupo traziam também elementos da música negra norte americana.

Mesmo que o Estado São Paulo tenha sido o grande centro do samba na década de 90, os outros estados da região sudeste também continuavam disseminando o samba. No Rio Janeiro, o samba até hoje é uma cultura popular e nos anos 90 grandes grupos surgiram como o Grupo Kiloucura, grupo que tinha três dos maiores compositores de samba da época: Délcio Luiz, Luiz Cláudio Picolé e Wilson Prateado. O grupo foi um marco na década de 90, se tornando um dos “dream team” do segmento.

O Grupo Molejo é outro grupo de destaque nos anos 90. Todos lembram das coreografias e das roupas, mas o grupo Molejo é um grupo respeitadíssimo dentro do segmento. Um grupo que quando se apresenta não deixa ninguém parado. Um perfil musical cheio de animação e um balanço incontestável.

Se fossemos falar de cada grupo e suas características iria faltar espaço aqui, mas de uma coisa é certa, pagode 90 é muita treta! Sendo assim, o pagode 90, o samba e as outras vertentes da música negra jamais serão passageiros, sempre será verdadeiro e contínuo.

Falando com quem viveu isso tudo – uma entrevista com Wagninho

Já que estamos citando alguns dos nomes importantes do pagode 90, convidei o meu parceiro Wagninho, que nos anos 90 foi integrante do Negritude Jr. para contar um pouco de como foi essa época. O cantor que está há 6 anos em carreira solo e já tem 35 anos de carreira, foi um dos grandes personagens do pagode 90. Confira:

Per Raps: Salve meu mano, Wagninho. Em que momento o samba entrou na sua vida? Quando você conheceu a galera do Negritude Jr?

R: Olha que curioso Tarso, eu vim de uma família que não tinha músicos. Minha mãe era doméstica, meu pai era ferroviário e quando criança achavam que eu ia ser jogador de futebol, rs. Mas por conta das condições da época, minha mãe não deixou seguir a profissão de jogador.

Mas mesmo vindo de uma família de não músicos, eu ouvia muita música dentro de casa. Além de pertencer a uma geração que foi muito influenciada pelas músicas norte americana, todo dia de manhã meu pai colocava a vitrola para ouvir em casa e acabei me deparando com os sons do Jorge Ben, Originais do Samba, Zeca Pagodinho, Jovelina Perola Negra e Agepê. De cara já me identifiquei e apaixonei pela sonoridade deles. Foi através dessas referências que ouvia em casa, que comecei a demonstrar interesse pela música. Cantarolando em casa e me envolvendo com a percussão e seguidamente com o cavaco.  O único e primeiro grupo que participei foi o Negritude Jr. Juntamente com Nênê e Claudinho (integrantes do Negritude Jr), ambos moravam próximo um do outro, isso facilitou a comunicação para criação do grupo no final dos anos 80. Mesmo com pouca infraestrutura, sem acesso a condições melhores, Negritude Jr foi um grupo visionário pra época.  Tanto na identidade musical, quanto na estética visual do grupo.

Wagninho a Golden Era do Pagode ao participar do grupo Negritude Jr. Créditos: Reprodução.

Per Raps: Como que era o envolvimento das pessoas e dos festivais de Pagode no final dos anos 80 e começo dos anos 90? Como os festivais do Butiquim do Camisa, Festivais do Choppapo, Birinight.

R: Os festivais estavam sempre lotados, e todo tipo de gente frequentava. O povo ia pela música, pela energia que o samba transmitia no espaço. O ambiente rolava muito respeito e uma energia muito boa. Os festivais de pagode dessa época foram fundamentais para os artistas dos anos 90. Os festivais passavam muita experiência e prestígio pra nós artistas. Ganhar um festival como esses não era pra qualquer um. O nível de exigência do público e dos grupos era muito alto. Você tinha que chegar “à vera” ao vivo. Se errou, já era, rs. Não existia a tecnologia para te ajudar. Isso foi uma escola pra gente, além de nos ter preparado muito para o que ia acontecer seguidamente. Quando aconteceu o sucesso, artisticamente estávamos preparados.  Através dos festivais, conseguimos mostrar os nossos trabalhos para gravadoras independentes da época. Gravadoras que foram muito importantes para o sucesso do pagode 90, pois colocaram o nosso trabalho pra rua e de forma orgânica ao sucesso.

Per Raps: Qual é importância dos artistas dos anos 90 para a história do samba?

R: O samba sofria muito preconceito pela grande mídia e pela sociedade. Sempre citavam que o samba era coisa de gente maloqueira, de que era coisa de vagabundo, e a gente com a nossa música combatemos tudo isso. Nos anos 90 levamos o samba para um patamar que ninguém jamais imaginou que fosse chegar. Nosso segmento do samba era de uma união muito grande. Nós transformamos e melhoramos muito a condição do samba no mercado. Hoje as coisas avançaram porque a gente também participou do processo de avanço do segmento como as gerações anteriores também fizeram.  A nossa música tinha muita verdade e profundidade. Tinha o lado comercial e de empreendorismo, mas costume dizer sem nenhum medo e pretensão, que nós fomos perfeitos. Nos doávamos muito pela música, tinha muito amor e humildade.

Per Raps: Como você enxerga a importância do samba nos 90 no processo de representatividade e consciência negra no país?

R: Bom, o nome Negritude já foi um combate, né? A gente sempre valorizou demais a nossa raça e o nosso povo. A gente foi crescendo com esse auto estima que a gente mesmo depositava. Falávamos pra nós mesmo o quanto a gente era lindo. Que tínhamos um sorriso legal, uma boca legal, um cabelo lindo. Isso criou uma casca de auto estima grande e nos ajudou muito a quebrar os tabus da época. Nesse caso, não tinha isso não impactar na nossa música. A gente falava da nossa realidade e a realidade do nosso povo, fazendo músicas como “Gente da Gente”, “Periferia” mostrando os problemas e dando um sentimento de esperança para as   comunidade, a gente acabou criando nossa estrutura “anti preconceito” tá ligado” ?! Automaticamente acabou impactando no público também que se sentia representado por nós A gente naquela época fez uma história muito bonita e fomos referência sim pra muita gente. Isso é um orgulho pra gente.

Per Raps: Vimos várias parcerias em músicas entre vocês com os Racionais Mc’s, como Fim de Semana no parque e “Gente da Gente”. Como que era a relação da galera do samba com o Rap nos anos 90?

R: O grande lance é que a sociedade tentou causar um certo conflito entre a galera do samba e a galera do rap, mas quando a gente do samba se trombava com a galera do rap, era só festa, rs. Vendiam essa idéia de que existia diferenças entre nós, mas isso nunca existiu. A gente veio do mesmo lugar! Frequentamos e gostávamos das mesmas músicas. Muito de nós frequentávamos os bailes black da Chic Show, da Zimbabwe e nos anos 90 as festas black também. A gente sempre se encontrava e tínhamos um respeito muito grande um pelo outro. Isso é mais um estigma feito pela sociedade que é lenda.

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