Nem Tudo é Close: prazer, Boombeat!

Uma análise da estética visual, lírica e rítmica da obra que colocou de vez o rapper no mapa.

Seguindo a máxima de transcrever em linhas o que toca no coração, a resenha de hoje é sobre Lucas Boombeat e o seu trampo solo, o álbum “Nem Tudo é Close”. Com os efeitos causados 2 meses depois do lançamento, se faz necessário dedicar um espaço para reconhecimento da importância desta obra. 

A produção musical ficou por conta da versatilidade de Vibox, e o mix/master (e a produção da faixa Prettygosa) ficaram por conta da qualidade de Ecologyk. Um ponto positivo neste assunto é o reconhecimento do produtor nesta obra: o nome do Vibox vem junto com o do Lucas na capa. Quanto às participações na rima, o time também vem pesado: Harlley, Murillo Zyess, Bivolt e a Vera Verão do trap: Gloria Groove.

A importância se dá pelo todo: na união da escrita, melodia e estética visual. E são estes três elementos que vão me guiar nessa resenha. Apesar de três singles que já terem saído antes, existe toda uma linha que entrelaça as faixas e as une na ideia principal do álbum. Mostrar toda a vivência de rua sem abrir mão do brilho e classe é algo que Boombeat faz como poucos. 

1. A estética visual

Logo quando ele divulgou a capa, me transportei para o final dos anos 90’s e toda a atmosfera futurista que a entrada do novo século estava trazendo. Os elementos liquid metal dos clipes de Scream (Janet e Michael Jackson) ou No Scrubs (TLC), assim como a escolha do preto & branco sóbrio-refinado de Vogue (Madonna), refletem a ideia do lado close que o artista quer trazer. 

A escolha dos figurinos e makes também não são à toa, este lado do glamour é definido pelos olhos marcados, bota de cano altíssimo, luvas e salto, assim como uso do couro vinil e renda. No final da matéria estão os créditos de toda a equipe envolvida nessa produção. Este lado é a pura luz!

Neste sentido, existe um paralelo inegável desta construção com a série Pose. Do close aos balls, os dois cenários mostram o contraste do brilho com a vivência sob uma posição marginalizada por diversos fatores. E ambos falam como este primeiro elemento muitas vezes é utilizado como armadura para o segundo. Esta aproximação se dá na lírica afiada do rapper com o enredo fortíssimo da série: nos dois casos, é impossível você assistir/ouvir sem sair, no mínimo, impactada.

E a imagem closeira passa a ser desmistificada no decorrer do álbum. Da capa até chegar no clipe de Nem Tudo é Close (que é a última faixa), é observada a desconstrução dessa imagem. O audiovisual retrata um Lucas despido, em sua forma mais natural e íntima, e os planos mais fechados desta filmagem focam em detalhes que revelam esta essência.  Já sem a make e as roupas marcadas, é mostrado também o lado da sombra, em contraposição à luz: nunca como algo negativo x positivo, mas sim, dois lados que se completam.  

2. O conteúdo lírico

Esta parte é uma das marcas registradas do artista desde antes de seu trampo solo. Seus temas sempre foram marcados pela luta, críticas ácidas e resgate da autoestima. O álbum foi um produto de “dificuldades essas que só quem vive sabe, com altos e baixos, cantando pra mim mesmo o que eu precisava curar em mim e em nós, escancarando minhas revoltas com o mundo que vivo e com o mundo que vive dentro em mim”, segundo o rapper em seu Instagram

Ao mesmo tempo em que suas linhas são o mais alto grau de intimidade e particularidade, Lucas empresta seus sapatos para o ouvinte calçar ao expor sua experiência. Enquanto suas letras são conforto para quem compartilha de suas vivências, elas também são um chamado para quem está alheio a estas questões, colocando em todos a responsabilidade da transformação social. Essa universalidade pode ser vista em trechos como: 

“Eu não canto a liberdade dos meus / Eu canto a liberdade de todos pra todos / Eu não ando preocupado com o seu / Eu tô preocupado em acabar com esse trono (…) Sei que cê não é a causa, você é o sintoma / Mas pode ser a solução do problema”


trecho de Ser Quem Eu Sou

Lembrando que este som, antes do álbum, saiu no Perfil da Pineapple. Por que é tão importante que alguém como Lucas reivindique esta ideia de universalidade? De forma frequente e equivocada, vemos a ideia de universal sendo criada por grupos majoritários e homogêneos, que possuem um espaço garantido e apagam toda e qualquer diversidade, colocando a si mesmos como modelo padrão e o diferente como um grupo restrito à parte. 

Isso pode ser visto, por exemplo, nas playlists das plataformas de streaming. As com temas gerais do rap, como novidades, hits e clássicos, são dominados por homens héteros. É difícil ver uma playlist em que a regra não seja essa, a não ser quando o nome vem com uma especificação, um nicho: Rap Feminino, LGBT, “A Vez Delas”… O que impede a heterogeneidade nas playlists gerais? 

Outro ponto marcante de sua escrita são suas críticas fortes e secas: 

“LGBT resiste, LGBT insiste, LGBT persiste! / Quando seu pai olha pra sua cara / E diz que prefere seu filho no crime” (…) “Quantos de vocês já mataram nós / E quantos de nós que se mata?”

trecho de Guerreiros e Guerreiras 

“Mona passou, você riu / Quando ela virou a esquina / Enquanto cês ria, foi morta / Viraram as costas, nem viu / Não queremos hipocrisia”

trecho de Ser Quem Eu Sou

Este lado do desabafo tem dois temas complementares: o da autoestima e o do amor. Estes pontos estão entrelaçados e transcendem o close ou o corre. O lado autoestima é representado por faixas como Nave Cor de Rosa, Prettygosa e Deboche: o teor lúdico demarca o foco nas possibilidades, na vivência positiva. 

Já faixas como Não é Lovesong, Melhor Assim e Relações retratam o amor em diferentes fases e visões. Nem Tudo é Close, a faixa que encerra o disco não poderia estar melhor posicionada: traz em si todos os elementos, a autoestima, a resistência e o amor como identidade, mostra onde ele quer chegar com este caminho.

3. A estética rítmica

Algo que merece destaque nesta obra é a sintonia de Vibox com Boombeat. Nas palavras do próprio Lucas, Vibox é tão compositor quanto ele neste trabalho. Abraçando a originalidade, o álbum transita pelo trap, funk, reggae e R&B, muitas vezes entrelaçados em uma mesma faixa. Já com experiência de produção de projetos como Do Banzo Ao Orun de Lucas D’Ogum, Feita Para Ser Amada de Alinega e o mais recente A Grandiosa Imersão… do Rap Plus Size, Vibox se consolida a cada dia pela sua criatividade. 

A finalização fica por conta de Ecologyk. Formado em Produção Musical, o artista também tem uma vasta experiência no ramo, inclusive lançou seu álbum no final do ano passado, chamado Venturo. O trampo do Ecologyk é marcado pela qualidade: a mix e master do álbum todo do Boombeat foi assinada por ele, e toda a obra é muito agradável de se ouvir. 

A sincronicidade do MC com o beatmaker é algo imprescindível em um bom álbum. Neste caso, parece que os beats de trap ficam mais fortes com as mensagens de luta, que a melodia do R&B propicia o tom intimista das devidas faixas, e o destaque fica na singularidade de Deboche: o trap embalando o flow do Lucas e o refrão de reggae na melodia do Murillo (que também mostra sua versatilidade no trap). 

Falando em versatilidade, ao fazer a pesquisa para lançar esta matéria encontrei um comentário no Twitter que falava “não sei se todas as vozes em Guerreiros e Guerreiras são do Lucas”, e são! Ele alcança os mais variados tons e flows no desenrolar da obra, mesmo tendo a fama de usar o speedflow. O fato dele não repetir a “fórmula do sucesso” até se esgotar foi a chave, algo que acaba acontecendo inclusive com muitos MCs consolidados. 


Fazendo um paralelo dos elementos do álbum com a lógica dialética – onde a síntese (ideia final) vem do contraste da tese com a antítese – eu coloco o lado close como a tese, marcado principalmente pela estética visual. Isso é posto sempre em contradição pelo corre e luta, marcada principalmente pelas letras – este ponto vem como a antítese. O trampo final como um todo, com toda a sensibilidade e despido de armaduras, é a síntese: a essência de Lucas Boombeat. 

Mesmo não sendo o primeiro, Lucas Boombeat abre caminhos. Em entrevista ao canal Guardei no Armário ele fala como sua arte transformou pessoas ao seu redor, como seu pai e seu namorado. Parece, então, que sua tática tem dado certo. Sigo na minha, de contribuir para que essa arte chegue em mais pessoas.

Créditos do álbum:

Foto capa @gabrielrenne

Arte @k0ty9v0s

Styling @olavoides

Luz @almeida_igr

Beauty @rudsonmotta

Produção Executiva @catacapelossi e @bcaly88

Estúdio @wborn_studios

@altafontebrasil