“A Vida de Axel Alberigi, Parte II: Tudo de Novo” | Resenha

No dia 10 de dezembro de 2014, o rapper paulista A.X.L lançou o famigerado álbum “A Vida de Axel Alberigi: Antes de Tudo”, que foi muito elogiado e indicado como um dos melhores álbuns daquele ano, e, do nada, nos últimos dias de setembro de 2020 (25), ele deu vida, oficialmente, ao álbum “A Vida de Axel Alberigi, Parte II: Tudo de Novo”, pegando fãs de surpresas e conquistando novos ouvintes, impactando à todos trazendo complementações e novas visões sobre a mesma temática do primeiro projeto: a vida e visão do garoto A.X.L em meio à conflitos, decisões e histórias da vida criminal na qual seu pai se envolvera.

Um dos pontos mais marcantes da escrita de Axel no último álbum lançado é a capacidade de mesclar a narrativa de forma tripla — contar os fatos como se vivesse na pele do próprio pai, de si mesmo, e em terceira pessoa, como um narrador de um filme do gênero drama com toques de suspense e de ação. Contendo beats de Coyote, k v lt, Enthidate, Martché, e inclusive do próprio A.X.L, o álbum traz também a guitarra e as vozes de Pai Guga (na faixa de nome “A Maldição do Dragão”) e os scratches de DJ Cost.

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foto por: Rolling Stone Brasil

Em trinta e três minutos de álbum, A. Alberigi é capaz de prender quem ouve a segunda parte com o toque de nostalgia de seis anos atrás, quando a primeira parte foi lançada: um misto de brutalidade (tanto nos beats quanto nas histórias narradas), reflexão, referências excêntricas e rimas absurdas onde as métricas não seguem uma linha específica, o que deixa a arte da lírica de A.X.L única aos ouvidos de quem o ouve — e de quem irá ouvir.

“As opções ainda são:
Cadeia, caixão
Guerra, fuga cinematográfica
Volta a fita e o que fica?
Começar do zero, uma nova vida
Uma nova chance, mas perde algo importante”

A.X.L em “O Inimigo”

A realidade embutida na forma com a qual o artista rima, traz uma densidade que é totalmente necessária para o álbum funcionar: de forma nua e crua. É a realidade de muitos jovens que crescem vendo familiares se envolverem na vida do crime, e, consequentemente, tentando sair, usufruindo de quaisquer ferramentas necessárias para conseguir consertar os atos cometidos. Quem é fã de A.X.L, sabe reconhecer que a agressividade nas letras do rapper é uma pitada de mágica em sua narrativa, como o próprio conta no segundo verso da faixa que foi citada no parágrafo acima:

“Axel, sai daí agora!
Arruma as coisas e vai embora!
Faz as mala, entra com sua vó no carro
Pega a estrada e não para!
Eu não confio mais nesses cara
Pai, me dá uma arma
Eu te ajudo
Filho, te juro
Vou resolver, só com vocês me preocupo
Vai, te prometo
Vai dar tudo certo
Segue o endereço!”

A.X.L em “Tudo De Novo”
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Misturando falas de seu pai com suas próprias falas na visão de um garoto crescendo em meio à uma ‘guerra’ violenta e por muitas vezes imunda, a capacidade de criar uma película cinematográfica na mente de quem ouve “A.V.A.A II” é quase instantânea; como o próprio artista diz em uma linha da faixa “O Inimigo”: ‘AX Big L, anos 2000 storytelling’ — mostrando que desde cedo havia envolvimento com o hip-hop. Um jovem escutando um dos nomes mais influentes da velha escola, Big L, que também possuía as habilidades de contar histórias de seu bairro e de seu estilo de vida. A.X.L com certeza juntou a absorção de ideias da sua fase de crescimento como ouvinte e fã de Rap, e conseguiu mesclar com seu talento nato para rimar e contribuir com a nossa cena, e o resultado foi tudo isso que acompanhamos na discografia do artista até nos dias de hoje — algo digno de prêmios e de muito mais reconhecimento.

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foto por: Rolling Stone Brasil

A parte II da história musical da vida de Axel contando os envolvimentos do pai em assuntos obscuros veio para fechar mais uma parte do ciclo: a primeira parte nos traz uma visão mais “inocente” de uma criança que ainda não tinha capacidade de entender como as engrenagens desse jogo rodavam para fazer todas as outras partes “girarem”, com esperanças ainda vivas, de certa forma.


Já o mais novo fruto da arte de A. Alberigi vem com os dois pés na porta, mostrando um amadurecimento notável de sua pessoa, possivelmente no começo da fase da adolescência, onde tudo já ficara mais claro e pesado de se suportar; a vontade de ajudar o pai a sair da vida do crime, os relatos de desespero, a mais triste notícia fatídica, e a esperança de verem as coisas sobre esse assunto melhorarem despencar junto da saudade e das memórias que ficaram, como é mostrado na última faixa do projeto, intitulada “Será Doce Morrer”, que, por sinal, já tinha sido lançada em maio de 2018. É a faixa final que fecha um novo ciclo, e, se por um lado o álbum começa arrebatador e completamente bruto como uma guerrilha (com a faixa “Big FI$H”); por outro lado temos uma faixa que é perfeita para dar fim à um compilado de músicas tão respeitoso e sincero, uma track calma, porém, tendo indícios de uma possível fusão de exaustão, sentimento de falta e de tristeza, que torna a obra uma das melhores do ano:

“Mas ‘tá difícil de aguentar, eu precisava dizer
Ser honesto comigo, já que só me tenho nesse abrigo
Castigo é guardar e criar mágoa
Eu quero transparente, água
Um sentimento cristalino
E se você tiver ouvindo
Para o mundo, vem dar um abraço no seu filho”

A.X.L em “Será Doce Morrer” (2018/2020)

Ouça “A Vida de Axel Alberigi, Parte II: Tudo de Novo”, nas principais plataformas: