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– por Eduardo Ribas, editor do Per Raps

Essa história poderia começar direto no seu clímax, ou seja, na participação de Mano Brown no Programa Freestyle. Por quê? Pelo simples fato desta ter sido a entrevista em que vi o MC linha de frente do Racionais MCs mais solto – e olha que eu assisto entrevistas (antes bem mais escassas) com Brown desde que comecei a ouvir rap, lá atrás em 90 e pouco!

Mas por que diabos alguém escreveria um texto falando sobre o quanto o entrevistado estava se sentindo à vontade ou não? Pra mim resposta é simples, mas será que ela também é pra você?

Antes de tudo, representatividade importa. Em todos os âmbitos da sociedade. Eu sou jornalista formado e na maioria das redações que passei, contava os negros nos dedos. Já enfrentei o racismo sutil de algumas redações e já ouvi relato de amigos que trabalharam com editores que não colocavam negros em destaque na revista ou na homepage de um site. Apenas ressaltando, entrei no mercado no começo dos anos 2000 e não nos anos 1950.

Isso ainda acontece, mas depois de muita luta de movimentos sociais, da implementação das ações afirmativas (que ganharam força com o governo Lula e a criação da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial) e dos poucos profissionais em atividade nesse ramo, vimos um começo de mudança. Já notou o aumento de jornalistas negros no quadro da Rede Globo, por exemplo?

Me surpreendi assistindo a programação matinal e vendo profissionais no Bem Estar, no Programa Ana Maria Braga, no jornal local e também em programas como o Profissão Repórter, sempre lembrando da ainda marcante presença de Glória Maria, hoje no Globo Repórter, ou do primeiro apresentador negro do Jornal Nacional, que ainda segue por lá, Heraldo Pereira – que nos faz lembrar que nem todo negro é progressista. Também vemos aumento da representatividade por toda programação e não mais apenas no comentário esportivo ou nas atrações musicais, como de costume até pouco tempo.

“Representatividade importa sim. Só não importa pra quem, por exemplo, sempre se vê representado e não precisa como meu pai fez uma vez, percorrer a cidade inteira pra achar uma boneca negra pra mim porque minhas coleguinhas não me deixavam brincar com elas porque eu “era preta e não podia ser mãe de boneca branca”. Djamila Ribeiro ,ex-secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo

“Mas mano, você vai falar do Brown ou vai ficar no momento filosofia no Per Raps?”. Vou falar dele, calmaê. Símbolo do rap nacional, a figura de Mano Brown, juntamente com o Racionais MC’s, adotou uma postura de distanciamento da mídia, que desde o início lançou um olhar estereotipado ao grupo, o que foi mudando (mesmo que muito pouco) ao longo do tempo.

Um dos grandes símbolos da maior abertura foi a histórica participação no VMB de 1998, com direito a prêmio de Vídeo do Ano e show com a música “Capítulo 4, Versículo 3”, ou a fatídica entrevista no Roda Viva, da TV Cultura, em 2007, em que, sozinho, Brown pareceu despertar medo em todos integrantes da sabatina.

Quem não se lembra da capa da revista Rolling Stone, em 2009? Eu fiz questão de comprar e ler ali, na hora mesmo. A partir desse acontecimento, ficava mais fácil ver o ídolo de uma esmagadora maioria de fãs do rap dividir pensamentos, influências, de vida e musicais, entre tantos outros assuntos antes quase secretos para o público.

“A gente é o que a gente come, bebe, respira e convive, irmão. Você vai se ilhar em uma filosofia que só pertence a você? Inteligência é estar no convívio, participando, interagindo. Não é se isolar. Essa empáfia de achar que sabe tudo e os outros não sabem nada passou a me irritar. No rap, isso me irrita” – Mano Brown em entrevista à Revista Rolling Stone Brasil.

Com o passar do tempo e essa maior exposição, o fã do rap começou a ter acesso a um lado que não conhecíamos de Mano Brown, vezes torcedor de seu time, o Santos, vezes saudosista da música, vezes político, sonhador, mas o que sempre se mostrou notável era o semblante do MC, estritamente sério. Essa era a parte que Brown nos permitia conhecer por meio da mídia, seja qual fosse o veículo, que não necessariamente condizia com o que Brown mostrava nos bastidores. Felizmente isso mudou, ao menos (e muito provavelmente) por uma rara vez, na participação no Programa Freestyle.

Divulgando seu primeiro disco solo, o Boogie Naipe, Brown foi de peito aberto ao programa e deu pra ver que, talvez pela primeira vez, o entrevistado se sentia em casa. E não era pra menos, afinal de contas estava sendo entrevistado por um negro como ele, (e isso importa e faz muita diferença) que veio de quebrada como ele e participa de um programa que há dez anos valoriza o rap, divulgando, expondo ideias além das rimas dos MCs e riscos dos DJs, em tom descontraído e sempre respeitoso. Outro fato importante é que o Programa Freestyle é independente, feito na raça assim como o Per Raps, e o avanço da internet com certeza facilitou essa alternativa frente a grande mídia. Talvez isso não faça muito sentido se você tiver menos de 25 anos, mas a coisa era bem difícil antes da web.

Voltando à entrevista, foi nela que descobrimos que Mano Brown também sente insegurança, claro, e que se preocupou com todos os detalhes possíveis antes de lançar seu disco. Vimos também comentários sobre cada disco do Racionais MC’s – essa parte foi a que mais invejei como entrevistador, Marcílio! – e ainda deu tempo de falar sobre James Brown e Tupac Shakur. O próprio Marcílio, apresentador do Freestyle, dividiu surpreso a mesma impressão quando divulgou o episódio. “Senti um Mano Brown muito a vontade e muito sincero em suas palavras”. Realmente, e que bom que o convite para a entrevista foi feito e aceito.

Mas como culpar Brown por nunca ter mostrado seu lado mais íntimo se a mídia, predominantemente branca (e entenda aqui que “mídia branca” se traduz pela mídia de massa, nada imparcial, ainda mais com o gueto e a população negra e que são dominadas por grandes famílias) que tem sua visão particular, pra não dizer estereotipada, do negro? Como esperar que Brown ou qualquer outro MC, ou pessoa negra, se sinta à vontade quando uma equipe inteira de profissionais da comunicação talvez se quer tenham ouvido seu trabalho ou, se ouviram, sintam-se atacados por ele em suas letras? Bom, eles podiam também fazer sua parte e entender que o ataque, na maioria das vezes, é focado nas estruturas, não é algo pessoal.

Bem melhor ter alguém que te vê como ídolo, que respeita seu trabalho e que entrega uma pergunta com propriedade e verdade nas palavras. Não preciso conversar com Mano Brown para ter certeza de que a entrevista feita pelo Programa Freestyle foi uma das melhores, se não a melhor, que o rapper tenha participado – aposto que ele se sentiu bem à vontade estando ali.

Por isso tudo, valorize seu canal preferido de informação, de preferência os alternativos. Se você é fã de rap e cultura de rua, compartilhe e fortaleça o trabalho de sites como

Rap Nacional, Bocada Forte,

Programa Freestyle, Zona Suburbana, RND e tantos outros. Apenas assim poderemos nos ver representados e termos entrevistas com tanta qualidade quanto essa que vimos com Mano Brown. E se você é uma pessoa negra, ignore os nãos, as portas fechadas e as porradas que a gente toma da vida. Siga em frente seja como MC, DJ, produtor ou jornalista. Juntos somos mais fortes e já passou da hora da coisa ficar preta.


Separamos alguns links com entrevistas feitas com Mano Brown em ambientes mais favoráveis, além da íntegra do programa Roda Viva:

Thaíde e personalidades do rap

entrevistam o Racionais MC’s, ainda mantendo uma postura mais séria, no Yo! MTV Raps:
https://www.youtube.com/watch?v=Zo4auMvNqJIhttps://www.youtube.com/watch?v=Zo4auMvNqJI

Entrevista ao Metrópolis (TV Cultura) conduzida por uma das poucas apresentadoras negras da TV aberta, Adriana Couto:
https://www.youtube.com/watch?v=oDoKYRVQ300

Entrevista ao programa de Youtube “Panelaço”, de João Gordo, que sempre mostrou seu respeito ao rap e ao Racionais MC’s:
https://www.youtube.com/watch?v=YOQFT38VU1E

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