Ontem (08/05), à convite da LAB, tivemos a oportunidade de participar da premiére de lançamento da nova faixa do Emicida, “Eminência Parda”. O evento aconteceu no Museu Afro Brasil, em São Paulo, e contou com a presença de fãs, jornalistas e amigos do MC.

A conversa teve a moderação de Eduardo Ribas, editor e co-criador do Per Raps e hoje, também, diretor de comunicação da Laboratório Fantasma. Ele conduziu a conversa com o Emicida por cerca de uma hora, para apresentar mais detalhes sobre a faixa que veio acompanhada de um clipe dirigido pelo cineasta Leandro HBL.

Por conta das recentes publicações que saíram nas redes sociais do Emicida com a hashtag #permitaqueeufale, existia grande expectativa sobre o anúncio de um novo álbum, grande parte disso surge pelo fato de que faz praticamente 4 anos que não há um lançamento de um trabalho contendo apenas inéditas, mesmo que ele não tenha deixado de trabalhar, já que teve a “Todos os Olhos em Nóiz” no DVD “10 anos de Triunfo”, e outros singles como “Inácio da Catingueira”, Vital e parcerias internacionais como “Hacia el Amor”. Parte da euforia foi também impulsionada por esse vídeo:

Questionado sobre o tal álbum, Emicida foi franco em dizer que ainda não há uma resposta sobre isso, de que está sendo estudado qual é a melhor forma de trazer isso a público e que os artistas que ainda hoje fazem discos só fazem porque são românticos, já que praticamente não se encontra mais aparelhos para tocar CD e que a capa da obra tem se tornado muito mais um porta-autógrafo do que qualquer outra coisa.

“Eminência parda” ou éminence grise,  é uma expressão em frânces utilizada para nomear  quando determinado sujeito não é o governante supremo de tal reino ou país mas é o verdadeiro poderoso, agindo muitas vezes por trás do soberano legítimo.

Falando especificamente sobre a música, vemos o reencontro do Zica da Rima com o Zica da Base, já que foi o Nave que assinou a produção da faixa. Além disso, a faixa ainda conta com três participações: o artista do ABC Paulista Jé Santiago, o MC tuga Papillon e a cantora paraense Dona Onete.

Ao responder como chegou em cada um desses nomes, Emicida falou que o primeiro a ser convidado foi Jé Santiago, por conta de sua versatilidade ao fazer Trap, e também pela verdade que ele entrega com a qualidade melódica que apresenta. Já, Papillon foi convidado a partir de um encontro dos rappers em Portugal. Emicida queria apresentar a Portugal preta que poucas pessoas conhecem, mas que possui grande importância e ganha representatividade com a voz do artista português.

Falando da Dona Onete…

Em especial, Emicida conta que queria ter utilizado um trecho da faixa “Canto II” da obra Canto Dos Escravos, interpretada por Clementina de Jesus, no entanto, pelo fato que samples originais são menos adaptáveis para se trabalhar, optaram por regravar o trecho e só encontraram em Dona Onete uma voz à altura de Clementina. Falando sobre o encontro que teve com ela, relembrou o poeta Sérgio Vaz ao dizer que “pessoas que falam ‘nós vamos’, talvez não apareçam no compromisso, mas se a pessoa diz ‘nós vai’ é porque com certeza vai estar lá”, então por mais que Dona Onete tenha uma agenda internacional de muitos compromissos, ela se empolgou com “Eminência Parda” e disse “nós vai” e foi mesmo.

Sobre o clipe, vemos nele a história de uma família negra de classe média que simplesmente vai jantar em um restaurante para comemorar o sucesso da filha mais nova ao passar no vestibular de uma faculdade, porém, eles são mal vistos pelos frequentadores brancos do estabelecimento. A produção é bem didática, propositalmente, ao mostrar como essas pessoas viam aquela família. Por mais que eles apenas estivessem celebrando uma conquista, existia um olhar de ojeriza e desconfiança por quem estava em volta. Uma situação que, infelizmente, ainda é frequente na nossa sociedade e que, sentimos, tem se ampliado ultimamente.

Recomendamos que o clipe seja assistido algumas vezes, pois alguns detalhes se sobressaem numa segunda análise. Um exemplo é o fato de que o incômodo das pessoas brancas retratadas no clipe não é com o corpo negro presente no mesmo espaço em que eles estão, já que há funcionários negros no restaurante, mas sim o que incomoda é a posição de igualdade em que aquela família negra se pôs ao fazer algo extremamente cotidiano e simples, sem pensamentos militantes quaisquer que sejam.

No final do evento, Emicida ressaltou o simbolismo e a importância de frequentarmos espaços como o Museu Afro Brasil, já que esse espaço reúne materiais e documentos da história do negro do Brasil, isso de forma ampla, tratando, obviamente, da escravidão, mas não só.  É um lugar que abarca a complexidade bem como a grandiosidade da nossa história e que merece ser mais divulgado.

Se você ainda não conhece ou não é de SP, O Museu Afro Brasil fica dentro do Parque Ibirapuera, próximo ao portão 10, e tem preços bastante acessíveis durante a semana e é gratuito aos sábados.
Conheça a programação em: www.museuafrobrasil.org.br

Por mais que não tenhamos recebido a esperada notícia sobre a chegada do álbum, este som, que traz o melhor do Emicida, ou seja, metáforas bem aplicadas e rimas contundentes, teve ainda a mistura de um grande nome do trap nacional, a nova geração lusa, e o resgate a personagens gigantes da música, como Clementina de Jesus e Dona Onete. Esperamos que seja apenas o início de um grande projeto.

A faixa já está disponível nas principais plataformas de áudio.

“É subalterno ou subversão?
Tudo era inferno, eu fiz inversão
A meta é o eterno, a imensidão
Como abelhas se acumulam sob a telha
Eu pastoreio a negra ovelha que vagou dispersa
Polinização pauta a conversa
Até que nos chamem de colonização reversa”
– Emicida, “Eminência Parda”

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