#Especial1998: Mas sobre o que a gente estava cantando mesmo?

Que 1998 foi um ano maravilhoso para qualquer fã de música, você já sabe. Mas quais os temas que pautaram as letras dos nossos artistas favoritos no rap, soul e r&b? A gente fez um compilado leve sobre o que estava na cabeça, na voz e, arrisco a dizer, no coração da galera no fim da premiada década de 90.

Aquemini, Never Say Never, Moment of Truth, Blackstar, The Boy is Mine, My Love is Your Love… dá para perder as contas de quantas músicas ainda embalam com excelência certos momentos da vida. Na época não dava para prever, mas o legado de 1998 é forte por conta da acuracidade em traduzir pensamentos, sentimentos, sensações e situações de maneira fenomenal.

A começar pela junção de duas figuras importantíssimas da adolescência negra americana, Brandy e Monica. Cantaram algo complicadíssimo em “The Boy Is Mine”, letra que narra um triângulo amoroso constrangedor, mas que nenhuma das partes demonstra querer abrir mão: “I’m sorry that you seem to be confused” / “Sinto por você estar tão confusa” – já apareceram algumas versões sobre o mesmo tema, mas nada chegou perto.

Ainda no universo dos relacionamentos amorosos, ao contrário do duo anterior, Whitney arrebenta tudo em “It’s not Right But it’s Okay”, clássico cantado até hoje a plenos pulmões sob uma diversidade ampla de remixes – que triste que nada, eu vou é te por para fora e cuidar da minha vida (e nem pense em voltar). O álbum “My Love is Your Love” também trouxe um dueto histórico com Mariah Carey, talvez as duas melhores vozes do cenário mais pop da época se juntaram para cantar “When You Believe”, trilha sonora da animação “O Príncipe do Egito”, que fala sobre fé e resiliência.

“The Miseducation of Lauryn Hill”, um dos melhores álbuns da década, fala de amor de todas as formas possíveis: a dor de um relacionamento tóxico (“Ex-Factor”), a doçura de descobrir um amor novo e inesperado (“Sweetest Thing”) e amor pela música (“Superstar”). Essa última carrega o tough love que traz uma bronca carregada de preocupação “music is supposed to inspire” / “música é supostamente para inspirar” , “hip hop started out as an art, now everybody trying to chart” / “hip hop começou como uma arte, mas agora o foco mesmo é aparecer na lista de mais vendidos” – puxão de orelha que vale para agora mesmo, aliás.

Falando em rap, hoje em dia se fala muito em diversidade temática nas letras, mas quem acompanha o rolê há um certo tempo sabe que não é de agora. Em 1998, Jay-Z lançou “Vol2…Hard Knock Life” com a faixa-título do álbum que teve o refrão emprestado do musical “Annie”: “It’s the hard knock life for us. Instead of treated, we get tricked. Instead of kisses, we get kicked. It’s the hard knock life!”  / “A nossa vida é difícil. Ao invés de sermos adulados, somos mal tratados. Ao invés de beijos, recebemos chutes” – que faz um paralelo direto com o dia a dia de quem vive na periferia ou tem condições financeiras mais difíceis. O que impacta bastante quem ouve, até hoje, é este refrão ser cantado por crianças com uma leveza antagônica ao tema. Apesar do refrão impactante, Jay-Z escolhe concentrar essa composição em seus feitos, habilidades como MC e talento para os negócios. Sempre traçando um paralelo entre passado, presente e, em alguns momentos, futuro.

Em “Moment Of Truth”, do álbum homônimo do duo Gang Starr, Guru também analisa sua trajetória, mas focado em passar adiante aprendizados não muito agradáveis e desabafar sobre suas angústias.  Em um dos refrões que mais me impactaram até hoje, ele recita: They say it’s lonely at the top in whatever you do, you always gotta watch motherfuckers around you” / “O ditado diz: o sucesso é solitário, não importa em qual área, você precisa ficar ligado nos filhos da puta que surgem à sua volta”. A letra toda segue com uma série de questionamentos como “Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?”; conselhos interessantes, “Não haja com a cabeça quente, não vale a pena perder o equilíbrio”; conclusões vindas de aprendizados difíceis, “Eu nem penso em beber ou me drogar porque aprendi que ao invés de aliviar as tensões, essas coisas acabam aumentando muito a minha ansiedade”.

Além dos citados acima, temos Blackstar (“Brown Skin Lady” com uma intro que lançou carapuças ao vento), Racionais (e a verdade é que eu colocaria o álbum inteiro aqui), Outkast (que ensina a se divertir fazendo rap)… é uma lista que não acaba nunca e quase impossível de compilar. A conclusão segue a mesma: 1998 foi especial demais.

 

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