Djonga, Junho de 94: o Brasil com a corda no pescoço

No último final de semana, Deus Djonga lançou seu novo clipe “Junho de 94”, um som que já era talvez um dos mais marcantes de seu novo disco, “O Menino que Queria Ser Deus”, e se tornou clássico com um clipe intrigante, pra dizer o mínimo.

Acontece que o videoclipe chega pouco depois de todas aquelas reflexões e metáforas que seguimos extraindo do aclamado “This is America”, de Childish Gambino, que inclusive foi assunto aqui no Per Raps dias atrás.

Então, a gente passou a encontrar metáforas em tudo quanto é cena de “Junho de 94″ também, tá pensando o quê? Confere abaixo!

Dicotomia entre as famílias

O clipe traz o contraste entre duas famílias: uma rica e uma pobre, sentados à mesa durante uma refeição. Seria uma cena comum se Djonga não estivesse “com a corda no pescoço”, uma expressão que designa todos os brasileiros pobres que, ainda que um dia consigam subir na vida, continuam sendo vítimas do racismo velado, da desconfiança, da falta de autoestima social.

Em primeiro lugar, Djonga numa mesa com uma família pobre dividindo um saco de pão e café, mostra que ele veio de um lugar mais sofrido, no qual as pessoas precisam dividir o pão mesmo que ele seja pouco. Essa cena fala sobre o apoio que ele teve durante o começo de sua carreira. A corda no pescoço remete a perder a sua própria vida em escolhas erradas: “pobre morre ou é preso nessa idade”.

O Djonga que aparece numa mesa com personagens brancos e visivelmente ricos, remete à ascensão que ele teve depois de seu primeiro disco, “Heresia”, de 2017. Sentado à mesa com uma família abastada, ele tem um café da manhã de comercial de margarina, com frutas servidas pelo empregado da casa, também negro: “antigamente enfrentar medo era fugir de bala, hoje dia enfrentar medo é andar de avião”.

Quem construiu o Brasil?

Um elemento que traz reflexões interessantes é a bandeira do Brasil: na cena da família pobre, a bandeira está pela metade em cima da máquina de costura, enquanto na família rica a bandeira veste a cadeira do pai.

Meu ponto de vista sobre essas duas composições de cena: a bandeira sendo costurada na família pobre representa um Brasil em construção, feito pelas mãos do povo trabalhador. Do outro lado, a família rica com uma bandeira prontinha de um Brasil fechado naquele mundo particular de empregados, riqueza e oportunidades não consegue (e nem quer) enxergar de onde ela veio, apenas usufrui do que ela representa. Afinal de contas, o Brasil que chega ao rico já vem pronto, embalado com tag da Louis Vitton e etiqueta de troca.

Verdadeiro poder de Djonga

Outro ponto interessante é que quando Djonga é enforcado no clipe (aqui estou considerando que você assistiu ao clipe lá em cima antes de ler esse artigo), seu algoz é o outro personagem negro do enredo.

Isso pode significar, entre outras tantas explicações nos comentários do YouTube, que os únicos que têm o verdadeiro poder para derrubar sua carreira de onde ela chegou são as pessoas que o colocaram lá e deram apoio antes de seu sucesso.

“Todo padrão é vício”

Depois da quebra de beat, quando começa a parte do “e quem falou que o disco antigo é fraco vai tomar no cu”, em francês purinho, Djonga aparece de cueca e tênis, ao lado da modelo Juju ZL sentada em uma privada e lendo uma revista de moda.

Esse trecho é basicamente um tremendo desabafo estético. Afinal, diz sobre como a modelo está cagando para a revista de moda, para o conceito e estereótipo de beleza criada por um mercado inescrupuloso e excludente. A cena lembra também um trecho da música “Atípico”, faixa que abre o disco novo:

“Quero Sheron Menezes
Pra quem acha que bonito é Paris Hilton
A gente riu com isso
Todo padrão é vício, todo padrão é vício”

Outro ponto deste trecho do clipe é que Djonga está do lado dela. Isso quer dizer mais do que realmente aparenta. Colocar os dois do mesmo lado representa o fato deles estarem numa mesma luta, nesse caso a libertação de padrões. Não me entenda errado, estar ao lado dela não quer dizer sofrer exatamente a mesma coisa, mas sim, apoiar e estar ali presente sempre que ela precisar cagar pro inimigo.

Claro que tudo isso representa uma viagem louca de um colunista durante uma madrugada inconfessável um ponto de vista absolutamente parcial, celebrando o que a arte nos traz de mais enriquecedor: poder tirar conclusões pessoais e explicações próprias baseadas em nosso repertório de vida. Tem inclusive uma teoria maravilhosa sobre Juju ZL ser uma representação de Deus também, procure nos comentários do YouTube.

Acho importante deixar registrado aqui que em um dia este videoclipe chegou ao primeiro lugar no “em alta” do YouTube e está bem próximo de chegar a 1 milhão de visualizações, em poucos dias.

Confira o Junho de 94, do Djonga