#BrequedosApps e quem tá por trás do corre das entregas

No último dia 01 de julho aconteceu a primeira paralisação dos entregadores de aplicativo, o movimento conhecido como #BrequeDosApps se repetiu no último sábado e o Per Raps esteve presente para trocar ideia com quem tá no front do serviço de delivery.

O movimento está sendo visto como uma novidade no setor de trabalhadores informais de serviços mediados pela tecnologia. A articulação dos entregadores começou em São Paulo há cerca de três meses e acabou ganhando peso em todo o país, trabalhadores do Pernambuco, Curitiba e Minas Gerais se uniram ao movimento de paralisação. 

Atualmente o setor é comandado pelas empresas Rappi, Ifood e Uber Eats, que já somam bilhões de lucratividade nos últimos anos, só em 2018, foram movimentados R$ 205 bilhões no país, segundo o Instituto Foodservice Brasil. Com a pandemia, se observa um salto ainda maior na popularidade de seus serviços e consequentemente o lucro de seus negócios.

Afinal, por quê os motoboys e ciclistas foram para as ruas? Os entregadores estão exigindo melhores condições de trabalho, como transparência sobre os métodos de pagamento, remuneração justa dos valores mínimos de entrega e fim dos sistemas de pontuação e bloqueios sem motivos relevantes, além da entrega de EPIs para trabalhar com mais segurança durante a pandemia. Resumindo, eles requerem as condições mínimas de trabalho às empresas mediadoras dos serviços de delivery. Fomos às ruas trocar uma ideia com alguns deles para entender melhor suas vivências e opiniões.

“O aplicativo tá cada vez mais difícil, exigindo muito turno ou que você trabalhe final de semana pra durante a semana ter pedido pra gente trabalhar”,

Leandro Salles, 21 anos.

É o que diz Leandro Salles de 21 anos, morador da região do extremo Grajaú e entregador de aplicativos há dois anos e meio. O jovem possui o ensino médio completo e também é barbeiro. No entanto, nos últimos dois anos têm focado nas entregas delivery como sua única fonte de renda,ainda confessa que em alguns dias da semana chega em casa duas da manhã após as entregas, sempre correndo para não perder o último trem da linha Esmeralda.

Trocando ideia com quem tá na rua

Confira a entrevista que fizemos com alguns entregadores que usam os apps para fazer entregas:

Per Raps: Quando você começou a trabalhar de entregador e por que? 

Leandro: É a única oportunidade que está tendo, faço outros tipos de trampo, corto cabelo também, mas atualmente tô só com as entregas por ser a única opção mesmo. 

Thiago: Não tinha oportunidade no momento então todo dia eu venho pedalando do Paraisópolis, dá 5km, pertinho! Trabalhando eu tô com a mente ocupada, você vem pra rua e todo dia tem coisa diferente.

Se você fica na favela, vou falar pra você, por isso que muito moleque entra pro crime. Muita discriminação, o cara vai tentar arrumar um trampo, não consegue, aí ficar com a mente vazia é a pior merda. 

Péricles: Eu sou de Pernambuco e vim pra São Paulo há dois anos. Eu tava trabalhando no centro, até que veio a pandemia tiveram que fechar e eu fui demitido. Disseram que no aplicativo tava pagando bem, até o começo da pandemia tava bom mesmo, mas agora tem muita gente e diminuíram muito as taxas de entrega por km. 

Jean Carlos: Eu tenho dois filhos, tava desempregado há um ano e o aplicativo foi um modo fácil pra gente que trabalha na rua ter uma renda pelo menos. Só que tem que ter disponibilidade e disposição pra ficar pedalando de onde você mora até a cidade. Eu gasto 40 minutos daqui pro Taboão, então são 40 pra ir e 40 pra voltar, fora o dia inteiro que a gente fica pedalando, vai indo, só não pode desistir. Eu penso assim, mente vazia oficina do diabo então se você fica lá sem fazer nada você só vai querer aprontar, o aplicativo tá ocupando a nossa mente.

Leandro Salles, morador do Grajaú e Thiago da região de Paraisópolis, ambos 20 anos.  

PR: Você aderiu ao #BrequeDosApps?

Leandro: Eu aderi à greve mas não fui pra rua, eu tirei um dia pra parar e ficar em casa também.

Péricles: “Durante o horário da paralisação eu não fiz entrega nenhuma, tem que parar, né? Eles não tão pagando bem! Mas assim que acabou eu vim pra rua, preciso fazer dinheiro”

Thiago: Aderi sim, no dia 01 eu parei total!

PR: Aproveita e conta um pouco pra gente como têm sido as condições de trabalho atualmente.

Leandro: Tem muita gente no aplicativo agora, quando eu entrei tinha mais moto e agora tá geral! Hoje se você não trabalha num feriado, sua conta na semana não toca entrega, a gente precisa subir o nível no “ranking”. As promoção, incentivo e essas parada que a gente ganhava pra trabalhar de fim de semana acabou, mano. A gente trabalha de fim de semana porque senão durante a semana não toca entrega, eles bloqueiam.

Thiago: Vou falar pra você, trampando aqui não dá pra fazer milagre comprar todas as coisas e tal, mas dá pra quebrar um galho e ajudar a coroa, pagar uma fatura do cartão. Melhor que ficar parado vegetando em casa, não dá não. Se eu não tivesse trampando, hoje eu tava na rua locão, despreocupado.

Jean: A gente depende muito do aplicativo, tem dia que a gente fica mais de três horas o app não toca nada e quando toca é uma viagem de R$7,00, R$8,00, muito pouco. Fora que tem que ter muita atenção, tem que pedalar não só por você mas pra quem tá na rua. Numa dessas você pode atravessar uma rua não ver um carro e ele te atropelar, ou você tá passando do lado de um ônibus e o passageiro sai e você atropela ele. Tem gente que não tá nem aí!

Péricles Lopes, 21 anos, pernambucano e mora em SP há dois anos.

PR: O que você acha sobre todo o movimento de reivindicação? Você acredita que vai rolar alguma mudança prática pra vocês?

Leandro Salles: Essa manifestação era pra ter sido uma coisa boa, mas só que mano, tem muita gente, entendeu? Algumas pessoas querendo ou não se aproveitam disso, muitas pararam e outras trabalharam em cima dos outros. Eu não sei, os caras vão fazer a paralisação dia 25 de novo, só que mano, tem muita gente em outra visão! 

Thiago: O movimento eu acho bom porque dá uma valorizada pra nós que é entregador! O pessoal acha que a gente quer carteira assinada e tal, mas na verdade a gente quer que aumente o frete e a taxa, né? Se eles dessem uma atenção a mais em questão de material, de bag, ter uma mecânica pra arrumar a bike, não bloquear por qualquer motivo e dar uma chance pra nóis se explicar também seria bom.

Jean Carlos, 29 anos, morador do Taboão da Serra.

PR: Como você enxerga os entregadores que não aderiram ao movimento?

Leandro: “Eles não tão vendo que tá cada dia pior, o moleque recebeu um pedido de 100m pra ganhar 1 real, se ele fizesse a Rappi ia pagar um real e pode pá que tocou pra outras pessoas. A gente tá perdendo cada vez mais valor e tipo, quem é novo a gente é humilde de ajudar, mas quando a gente precisa de força não pode parar meio mundo e um só trabalhar de olho grande. Mas assim, quer fazer faz, mas vai totalmente contra todo nosso movimento. A gente não quer brigar com o entregador, nossa treta é com aplicativo, mano. Apenas.

Péricles: Esses são os caras que não dão valor ao suor, porque pensa uns caras que ralam, é o entregador pra ter dinheiro no bolso, principalmente os de bike. Pros caras vir e pagar pouco… Esses não tão dando valor pro próprio suor!

PR: Agora me conta uma coisa, o que você costuma escutar no seu fone de ouvido durante as entregas?

Leandro: Ah, no papo, mano? Eu gosto de escutar funk consciente mano, me empolgo! Ouço RAP também, batidão, tem que ser batidão!

Jean: Tem uma música do Projota, ele fala assim – “Se o diabo amassa o pão, você morre ou você come? Eu não morri e nem comi, eu fiz amizade com a fome”, esse som é pancada, até arrepio quando escuto ela, se identifico muito. 

Péricles: Eu sou gay né, mulher? rs Então o que eu escuto mais é Glória Groove, Lucas Boombeat  e escuto bastante Baco Exu do Blues também.

Thiago: Eu curto MC Neguinho do Caxeta, as músicas são muito boas! De rap eu escuto mais Trilha Sonora do Gueto, Racionais e Felipe Ret.


Saiba como apoiar o #BrequeDosApps

Não faz ideia de como apoiar a causa dos entregadores? A gente te dá algumas dicas:

Em primeiríssimo lugar, não use os aplicativos no dia das paralisações! Faça sua própria receita e poste sempre utilizando as hashtags #BrequeDosAPPs e #ApoioBrequeDosApps. Se ainda sim precisar do delivery, faça seu pedido diretamente nos estabelecimentos, dê preferência aos pequenos negócios. Na data do breque, acesse a loja do aplicativo em seu celular e não se esqueça de deixar seu comentário em apoio a greve!

Para não esquecer, a greve é para garantir alguns direitos mínimos aos trabalhadores que estão se expondo a inúmeros riscos recorrentemente. Apoie e divulgue!