“Black is King”, de Beyoncé: Resenha

Beyoncé lançou em 31 de julho de 2020 o álbum visual Black is King, sua produção executiva em parceria com a Disney +, obra que também é assinada e dirigida pela cantora.

O filme é um projeto visual de The Lion King: The Gift, trilha sonora produzida para o remake de O Rei Leão, uma renderização 3d do filme,  lançado em 2019.

Produzido sob a curadoria da cantora, o álbum tem a participação de nomes conhecidos da música negra como Jay Z, Kendrick Lamar, Pharrel e Childish Gambino. No entanto, Beyoncé fez questão de trazer ao projeto, artistas célebres do pop africano e o afrobeat contemporâneo como Burna Boy, WizKid (que tem vários features com Drake), Mr Eazy, a americana Tierra Whack (que teve apresentação memorável no ultimo AfroPunk no Brooklyn), e outros nomes talvez ainda pouco conhecidos por aqui como Shatta Wale, 070 Shake e Jessie Reyez,  Tiwa Savage, Tekno, Yemi Alade, BusiswaSalatiel, entre outros.

Com Black is King, Beyoncé faz uma releitura icônica e repleta de simbologias de O Rei Leão, contando a trajetória de Simba, um menino que carrega todo legado de sua realeza, mas se perde pelos caminhos tortuosos do mundo, desconectando-se de seu propósito e ancestralidade.

Beyoncé utiliza vários conceitos artísticos, culturais e religiosos para contextualizar a trama do jovem Simba. Transcrevendo-a para um cenário africano urbano e atual, o filme conduz os personagens de forma sincrética.  Scar é representado por Exu. As forças femininas do filme por orixás como Oxum, Iansã, Ewá e Obá. Até mesmo a Pomba Gira, entidade da religião afro-brasileira de origem bantu aparece no musical. A própria Beyoncé como Oxum, sua orixá, e como Mama África. Os perigos da vida e morte representados por Omolu e o umbral mostrado nos prazeres efêmeros da vida e da luxuria.  Em alguns momentos Beyoncé recorre à elementos do cristianismo bizantino na obra.

O retorno de Simba à suas raízes tem muito a ver com os níveis de consciência logo, à iluminação e a compreensão da nobreza de sua história aqui na Terra, a retomada do trono.  Paralelo à isso, por se tratar de um jornada transcendental, Beyoncé passa pelo afrofuturismo para contar a história, como também pela Teoria dos Antigos Astronautas,  concepção de que os Deuses eram alienígenas e o contato com a Terra nos trouxe informações fundamentais para o desenvolvimento da nossa cultura, tecnologia e civilidade. O que é uma analogia também à difusão e integração cultural africana ao redor do mundo após a diáspora. 

A cantora declara que o intuito da obra é contar a história do povo negro por outra perspectiva, e que essa história inspire orgulho e auto-estima.  Principalmente, questiona uma África pobre e marginalizada a qual estamos habituados. O que Beyoncé revela são traços de uma história pouco contada de fato, a de uma África pré-colonial detentora dos maiores comércios de ouro, couro (mostrado várias vezes no filme, como as peles de boi e leopardo, marcas da realeza africana) e diamante, assim como os mais ricos e antigos impérios, como a Etiópia. O filme não economiza em elementos simbólicos e estéticos para passar a mensagem, o que o torna uma obra-prima atemporal.

Desde a bandeira dos EUA com as cores do pan-africanismo mostrado na música “Already”, ou a reprodução provocativa de cenas do filme “Um príncipe em NY”, com empregados brancos servindo uma elite negra, escovando seus dentes cheios de grillz, em “Mood 4 Eva”.

A própria mansão dessa elite, que é a mesma onde foi filmado “O Guarda-Costas” em Hollywood, lembrando a diva Whitney Houston. A citação por Jay Z à Mansa Musa, imperador de Mali, considerado até hoje o homem mais rico da história da humanidade.  Ou quando rima Mandela (presidente e líder africano) com Fela (Kuti, fundador do afrobeat). No filme aparecem obras do artista plástico Derrick Adams emprestadas da mãe de Beyoncé.  Também o livro do historiador e especialista em cultura Iorubá, Robert Ferris Thompson.  O jogador nigeriano de basquete Dikembe Mutambo, e também estátuas de ‘Panteras Negras’.

Fora todas as referências de cores, danças e costumes tribais representados no filme.

Porém, ao mesmo tempo que o filme exalta uma riqueza extrema, riqueza de direito e origem do povo negro,  mostra também que, todo o luxo e ostentação não preenchem as necessidades do espírito.

A curtição e a falta de maiores responsabilidades na vida (o famoso Hakuna Matata) dialogam com a consciência do jovem Simba, o que o distancia cada vez mais de seu propósito. A dualidade entre o bem e o mal, a luz e a sombra, nessa narrativa espiritual e mitológica conferem ao enredo níveis elevados de significado.

POLÊMICAS

Ao ser lançado, Black is King recebeu vários elogios como também gerou polêmicas.  Aclamado por sua produção impecável e por reverenciar a riqueza e beleza negra, Beyoncé pretendeu ressignificar o conceito de África e negritude. 

No entanto, algumas críticas no cenário nacional e internacional, fizeram com que debates calorosos viessem à tona nas redes sociais. No Brasil, a historiadora Lilia Schwarcz, em matéria publicada pela Folha de SP, acusou Beyoncé de glamorizar negritude com estampas de oncinha. Ainda, que: “a Diva pop precisa entender que luta antirracista não se faz com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”. A professora foi alvo de muitas críticas, principalmente por não ocupar um local de fala, ser branca, e orientar uma mulher negra como construir sua própria narrativa. Isso porque a história sempre foi predominantemente contada com protagonismo e perspectiva branca.  É bom saber que Beyoncé participa ativamente das lutas antirracistas, a ponto de contratar advogados para defender manifestantes do movimento Black Live Matters nos EUA. 

O discurso e arte de Beyoncé em si, já é político. O fato de uma mulher negra estrelar no topo rompe barreiras. Assim como ser mulher que explora sua beleza e sexualidade, ao mesmo tempo em que é mentora de sua carreira, é outra estigma de machismo que se rompe.  

Assista o clipe de “Brown Skin Girl”

Uma questão que a artista levanta em suas músicas, e que é bem anterior a Black is King, é sobre a valorização da negritude vinculada à ostentação capitalista norte americana (vide rappers cultuando carros e mansões como status de emancipação), e mesmo às monarquias africanas, que eram sistemas hierárquicos e de opressão.

Por mais representativa que Beyoncé seja, nem todas as mulheres podem vestir um Givenghy, como cantado em “Formation”. Se a cantora glamorizou a África como foi acusada, desde o início ela deixa claro que quis ressignificar o conceito.

A arte se atribui da liberdade e licença poética para interpretar a vida, e com isso Beyoncé criou uma epopeia moderna negra. Se hoje é possível questionar sistemas políticos, organizações econômicas e ocupar espaços de privilégio, não ter sido expropriado historicamente permitiu isso.

Sobre a obra de Beyoncé ter um viés mais social e economicamente mais justo ao tratar de identidade e representatividade, seria um salto enorme, mas não o fazer não é um erro. Pelo contrário, a arte transforma a vida e sua obra já fez mais pelo povo negro do que muito discurso acadêmico.

O filme ainda não tem previsão de estréia oficial aqui no Brasil.