“Apollo / Rude Bwoy” - Por Dentro Das Incríveis Faixas de Amiri

Em 4 de abril de 2019, Amiri nos presenteou com “Se Eu Morresse Hoje / O.N.F.K.”que vem sendoaté agora, seu último single lançado. Desde o EP “Êta Porra!” (2012), o rapper paulista conquistou milhares de plays e de fãs admirados por seus trabalhos cheios de vida e de punchlines agressivas, com muitas linhas contendo jogo de palavras e referências sobre todos os assuntos imagináveis.

Analisando a magnitude de “Apollo / Rude Bwoy”

Lançada em 24 de outubro de 2016, sendo o segundo single do rapper naquele ano. Do começo ao fim, as duas músicas são completas e se unificam com uma troca de beats interessantíssima. Contendo rimas agressivas, jogo de palavras, referências, autoafirmação, questionamentos sociais e musicais, e continua sendo uma das músicas mais sensacionais do Rap brasileiro.

“ Que que ‘cês fizeram com a cena?
Juntei meus pedaços e eles não vieram pra arena
Eu sou gladiador nessa guerra
Tão old school na escrita
Que os caras me deram uma pena”

Provando que é um gênio, Amiri conseguiu juntar os principais elementos do Rap noventista (ou como dizem nos dias atuais — o “Rap de mensagem”) em um beat trap e quebrar toda a cena com um impacto duplamente mais forte, deixando os ouvintes se questionarem sobre como ele conseguiu fazer isso sem virar “meme”, sem virar motivo de diss para outros MC’s, conquistando aprovação mútua e ainda lançando um futuro clássico.

“Quanto à cena, não é bom vê-la triste
Mas ‘cê conhece quantos MC’s que congelam whisky?
Não, eu não tô na brisa
Mas tá tipo parar em frente ao quadro da Monalisa
E esperar que ela pisque… Dá sono.”

Observem que Amiri conseguiu alfinetar mais de metade da cena atual (2019) em 2016, sem citar nomes ou provocar músicas em resposta à “Apollo”, o que nos mostra o quão respeitoso o artista consegue ser, ao mesmo tempo em que é respeitado.

“E sabe como ver se ‘nóis’ tá vacilando?
É que os racistas daquela mão, hoje, pagam de mano
Self-service, se sirva até o prato partir (woo!)
E, hoje, ‘cês não vão falar um “A” pro Davi
De três pernas — é assim que ‘cês vão lembrar do Saci
E apanhar com um gato morto até o gato latir”

Sejamos francos: quantos rappers conhecemos que conseguem unificar rimas explosivas e inteligentes com críticas sociais pautadas em racismo ou desigualdade social tendo cem por cento de aprovação por seu público sem serem criticados ou chamados de “vendidos” ou “ultrapassados”? Sim, eles existem, mas devemos concordar que não são maioria… Pelo contrário.
Alguns dirão que o sucesso de “Apollo” se deve apenas pelo beat “Trap”, mas… Não. O sucesso de “Apollo” se deve à junção da produção inquestionável de Deryck Cabreral das faixas — sendo mixadas por DJ Latif e masterizadas pelo já conhecido Luiz Café, misturadas à coragem e genialidade de Amiri na escrita. Geralmente, em um beat como esse, a grande maioria dos rappers não rimariam tantas verdades sem camuflagem usando de anedotas, trocadilhos e referências como o MC paulista conseguiu fazer.

Ouça o Per Raps Cast que gravamos com o Amiri

Rude Bwoy

A segunda parte da faixa — e não menos impactante, é intitulada de “Rude Bwoy”, e contém um teor mais “livre”, onde Amiri se sente mais à vontade em cuspir linhas mais autoafirmativas, mas ainda assim deixando sua assinatura com pautas históricas raciais que deixam o ouvinte arrepiado e boquiaberto.

Afinal, eu verso vulcão — quente
Nós temos escutado o frio que nem Plutão sente
As chibatas não vão vencer o meu vô
Rap fez ser o que eu sou
E não morre, enquanto o meu pulmão enche

Deixando a sonoridade Trap de lado, o rapper acelera no segundo beat mais veloz do que o de “Apollo”, deixando referências a todo momento, desde Racionais MC’s (na linha “Descendência de rei e quer que eu aja que nem Zé?” — da música “Vida Loka (Parte 2)”) até suas raízes, pronunciando o título “Rude Boy” [termo que serve para apontar jovens envolvidos com criminalidade e rebeldia na Jamaica na década de 60] com o próprio sotaque jamaicano, assim dando a sonoridade da palavra de “Bwoy”, trazendo o ouvinte para mais perto de sua cultura genealógica.

“Quer que eu fume? Dá o beck… Não
Quer que eu fume? Dá o REC
É assim que eu chapo
A mente que o Amiri tá vai impactar
Minha habilidade lírica tá intacta
E ela traz rima quente, não, morna: traz África
Rap de raiz da forma mais clássica”

Retorno

Os fãs de Amiri não cansam de esperar por novos lançamentos do rapper, que provou ser um dos mais líricos dessa nova geração da “nova escola”, carregando bagagens da velha geração em termos de escrita e de ombridade à cultura do hip-hop. Amiri anunciou o álbum “O.N.F.K.” para o dia 29 de novembro de 2019. “O.N.F.K.” significa “O amor nunca perde seu caminho de casa” ou “Odo Nniew Fie Kwan”, que vem do sistema de escrita filosófica de Gana, Adinkra.

Sabemos que Amiri irá voltar com tudo, para a alegria dos fãs e para o fortalecimento da vertente mais bruta e letal do Rap — a escrita lírica, histórica, combatente e inteligente, com todo o requinte de versatilidade e coragem que o artista possui.