Suportar o dia a dia também é um ato de resistência e superação. Ao cantar que “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, Belchior demonstrava, já em 1976, que a saúde mental do artista merecia um pouco mais de atenção. 

O preço do showbiz é alto. Sete a cada dez músicos pagam com a saúde física e mental, com o fim da carreira, da família ou da própria vida. É o que aponta o estudo da Record Union, uma plataforma de distribuição digital da Suécia, colocando a depressão e ansiedade lideram a lista das doenças predominantes mencionadas.

A exposição, o excesso de shows, a pressão para alcançar o sucesso, a agenda constante e o distanciamento de casa. Todos esses problemas, somados à necessidade de vender uma imagem forte, sem disponibilizar o próprio tempo para uma autorreflexão de sua saúde, são as principais causas desse problema.

E onde o rap se encaixa nisso?

Apesar de alguns dos raps abraçarem abertamente a tristeza em sua arte, assim como fez XXXTentation, a depressão e o hip-hop não se dão bem em diversos casos, seja no Brasil ou no mundo. Em alguns casos, tratar do tema na música pode ser considerado um ato de fraqueza do artista, dentro de um cenário predominantemente machista.

Em 2013, Emicida havia exposto sua ferida, em “Hoje Cedo”. Em seu verso, relata o sofrimento que escondeu em segredo, o incômodo com holofotes e o distanciamento de casa. Entretanto, o hit, que tocou diariamente nas rádios brasileiras na época “era um pedido de socorro”, como explicita em “AmarElo”.

A nova canção do MC paulistano, com participação de Pabllo Vittar e Majur, já traz em seu nome uma referência, uma denúncia e/ou grito de socorro para o tema dos transtornos mentais. Amarelo, vale lembrar, é cor da campanha do mês de setembro, com o objetivo de conscientizar sobre a prevenção do suicídio.

Em sua participação no programa Papo de Segunda, do GNT, Emicida contextualiza a angústia da depressão como algo paradoxal. “Você reconhece que a depressão existe, que é uma realidade, mas por não ter tempo de se entregar para ela, você tem um lado que vê aquilo como uma frescura, criando uma dualidade na sua cabeça. Você não se dá o direito de olhar isso como doença, porque não pode abaixar a guarda de jeito nenhum”, disse. 

Porém, Leandro não foi o primeiro a tratar do tema publicamente. Os rappers Dexter, Baco Exu do Blues, Marcelo Gugu, Pregador Luo e Black Alien também já falaram sobre o assunto. Nos Estados Unidos, há artistas que falam sobre depressão e possuem destaque, como Scarface, Earl, Future e Biggie. 

Black Alien, por exemplo, conta que sua doença foi além, passando por outra doença: a do vício. “Quando o SpeedFreaks morreu (em 2010). Aquele lance de acordar e já querer dormir. Não tomar banho, não escovar os dentes, comer pouco. Eu sou um sobrevivente”, relatou à Revista Trip.

Emicida, em post nas redes sociais: “Eu aprendi que o hip hop nos faz mudar um hábito, uma mentalidade, pra depois mudar nossa realidade. Mas no meio de todo esse processo, tiveram várias outras músicas que também contribuíram pra eu me tornar mais forte. Esse mês faz 43 anos que o Belchior lançou Alucinação e o verso “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” tá fazendo mais sentido do que nunca. “

Um dos exemplos mais emblemáticos sobre o tema de transtornos psicológicos dentro da cena do rap é Kanye West, diagnosticado com bipolaridade. Ye disse, através das redes sociais, que pôde experimentar do preconceito e exclusão: “dizem que você é louco”, ouvia. Classificou o tratamento como cruel e primitivo. 

Parceiro musical por longa data de Kanye, Kid Cudi se internou, em 2016, em uma clínica de reabilitação por depressão. Em um desabafo para os fãs, Cudi pediu que se debata um tema de forma urgente: a saúde mental dos homens, mais especificamente os negros. De acordo com ele, há uma noção equivocada de que problemas de saúde mental são sinais de “fraqueza”, desconexos com a identidade masculina.

“Cheguei à reabilitação por depressão e vontade de me matar. Eu simplesmente sou um humano machucado nadando em uma piscina de emoções todos dias da minha vida. Há uma tempestade violenta dentro do meu coração o tempo todo. Eu não sei o que é se sentir em paz. Eu não sei como é relaxar. Minha ansiedade e depressão tem governado minha vida por tanto tenpo quanto me lembro, e eu nunca saio de casa por causa disso” – do Facebook do artista,

Apesar dos relatos negativos…

Todos os citados acima já demonstram vencer a batalha mental: Black Alien conta que está sóbrio e renovado; Kanye é otimista e já classifica sua bipolaridade como “superpoder”; já Emicida diz se enxergar maior do que seus problemas do passado. 

Mesmo superação encontrada na poderosa letra de “I”, do rapper americano Kendrick Lamar, que trata sobre amor próprio, confiança e superação.

“Eu me amo / (Ele disse pra eu me levantar, a vida é mais que suicídio) / Eu me amo / (Um dia de cada vez, o sol irá brilhar)”, conta King Kunta, que já inspirou um comercial de combate à depressão.

Apesar dos músicos relatarem a força da superação, ainda é preciso discutir como a indústria da música trabalha de forma nociva, resultando no famigerado “Clube dos 27” – termo que se refere ao alto número de músicos da música popular que morrem aos 27 anos, por problemas psicológicos. Lil Peep e Mac Miller foram alguns dos que perderam a luta contra a doença.

Além disso, é preciso abrir espaço e ouvidos para debater a depressão dentro do hip-hop, tanto os fãs quanto os artistas. A cena deve cobrar menos uma postura firme dos rimadores, respeitando o espaço para que lidem com seus sentimentos da forma mais transparente possível. No entanto, é importante lembrar que nem sempre cantar a depressão será a melhor terapia, pois nem todos são Sujeitos de Sorte. 

Assista o clipe de AmarElo:

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