Adeus, Kobe Bryant: a jornada de um herói rumo à História

Domingo não foi um dia fácil. Lembro que era meio de tarde, eu estava compartilhando nos stories uma HQ que mostrava um jogo entre Lebron James e Kobe Bryant disputando quem era o melhor, falando do feito que tinha acontecido um dia antes em que o “King” passou o “Black Mamba”* em número de pontos na NBA, quase como se Neymar superasse o Pelé em gols. E a história terminava com os filhos dos dois dizendo que continuariam o legado dos pais. Minutos depois, amigos me procuravam pra dizer “ce viu que o Kobe morreu?”.

Meu mundo caiu. E nem consegui entender muito bem o por quê. Acho que a gente só nota a importância de certas figuras em nossa vida quando elas se vão. Dependendo de como isso acontece, vem também na nossa mente como a vida é um sopro, como estamos aqui hoje e amanhã podemos não estar mais. A notícia era real e Kobe Bean Bryant, estrela do Los Angeles Lakers e embaixador da NBA no mundo, estava morto após a queda de seu helicóptero. Para o desespero de todos, sua filha, de 13 anos, que vinha jogando basquete e mostrando talento, estava junto, assim como outras sete pessoas. Todos estavam indo ver um jogo. 

Nunca fui seu maior fã, à época vi mais valor em nomes como Michael Jordan, que estava perto de terminar sua carreira e que eu acompanhava desde 1996, Allen Iverson, que tem três anos a mais de idade do que Kobe e impactou o jogo num ângulo mais estético, ou outros como Vince Carter, Tracy Mcgrady e, um pouco mais tarde, LeBron James, Carmelo Anthony, entre outros tantos. 

Mas Kobe Bryant tinha o dom de nunca passar batido, simplesmente não era possível fazer vista grossa em relação a ele. Em quadra, atacava tão bem quanto defendia e era temido e respeitado por isso. Puxando memórias do começo dos anos 2000, lembro que comecei simpatizando muito com o jovem Kobe, que vestia o número 8 e tinha um corte afro que eu achava zica demais e meio que tentava usar igual. Dali foi um passo pra comprar um par de tênis que levavam seu nome, o Kobe II, um dos sneakers mais feios que já se viu na história – tenho ele até hoje, todo detonado, mas tenho. Essa era a época em que eu estava mais engajado em jogar basquete, tanto que, sem falar da minha performance porque isso é irrelevante pro texto, uns amigos começaram a me chamar de Kobe (e um ou outro ainda me chama assim até hoje).

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Isso, entre outros motivos, me fizeram acompanhá-lo de mais perto. E ao mesmo tempo em que eu me sentia atraído por sua figura, também me sentia repelido. O Lakers ganhou três campeonatos seguidos de 2000 a 2002, muito graças a dupla Kobe Bryant e Shaquille O’Neal, outro monstro em quadra, mas enquanto uns mudavam de time pra torcer pela dupla, notei que a arrogância de Kobe me impedia de “vestir a camisa”. Tanto que em certo ponto ele abraçou a imagem de “vilão”.

O que eu não vi na época é que, como todo personagem marcante, Kobe estava em sua jornada do herói. Começou jovem na liga, sempre muito focado e obstinado, porém arrogante e fominha. Seguiu assim por um bom tempo até que a vida lhe deu os primeiros tapas na cara: Shaq deixou o Lakers depois de rixas e de um cheque-mate “ele sai ou eu saio” e um caso de estupro, que assolou o miolo de sua carreira. 

Passados os obstáculos, e não vou me alongar nesses pontos porque esse não é meu objetivo aqui, Kobe estava diferente. Aquilo tudo passou a afetá-lo e talvez tenha colocado sua vida e carreira em perspectiva, fazendo com que ele passasse a ser uma pessoa ainda mais focada no trabalho, mas também um pouco menos egoísta, um pai mais presente e um companheiro de time um pouco mais leve – só um pouco. Eis que começou seu segundo ato na NBA, feito que poucos jogadores conseguiram alcançar, e dois títulos vieram nos próximos anos (2009 e 2010) assim como uma mudança de patrocinador esportivo, um novo conceito pra lidar com seus demônios, a Mamba Mentality, e um apelido dado por si mesmo, Black Mamba, em alusão a cobra mais veloz, assertiva e venenosa da natureza. 

A gente só nota a importância de certas figuras, como a de Kobe, em nossa vida quando elas se vão. Vem também na nossa mente como a vida é um sopro.

Pode parecer bobo e difícil de entender essa mudança lendo esse texto, sem saber dos detalhes da história ou sem ter acompanhado parte da jornada de Kobe, que sempre pareceu controlar sua narrativa e entender a importância de contar sua própria história. E isso é tão verdade que, pouco depois de se aposentar, lançou uma animação sobre seu caso de amor com o basquete e… ganhou um Oscar! Isso muito provavelmente vai ser um feito que nenhum outro jogador vai conseguir alcançar. Nessa segunda metade da carreira, Kobe trabalhou sua imagem, ainda seguindo sua trilha obstinada de se tornar uma lenda no esporte e ultrapassar Michael Jordan, considerado por muitos o maior jogador de basquete que já existiu, se mostrando mais humano, menos turrão e vendendo seu foco como sua maior força. 

Acompanhando de perto essa jornada do herói que foi Kobe Bryant, aprendi muito. Vi que nem mesmo as figuras heróicas são perfeitas, aliás elas estão longe disso. Que ser bom em uma coisa não te faz ser bom em outras. Aprendi que precisamos dos outros para vencermos juntos, seja no que for, que um pouco de ego faz bem, mas que em excesso pode significar nossa queda. E que uma das poucas certezas que temos na vida é de que vamos errar, e sendo assim, sabermos o que fazer depois é o mais importante.

Kobe errou como colega de time, como marido, como homem e jogador por ter optado por uma postura mais solitária de jogar um esporte coletivo quase que sozinho, mas o que que ele fez com esses erros foi o que o destacou. Talvez ele não seja lembrado como o maior atleta de todos os tempos ou nem como um dos cinco maiores jogadores da NBA e coisa do tipo, mas o que posso afirmar é que, por mim, Kobe entra sim para a História.

Em uma era em que a internet ainda ganhava força, aumentando a relevância da liga, dos jogadores e da magia do que cada um deles realizavam na quadra, Kobe tinha seu brilho próprio. Feitos como um jogo de 81 pontos, segundo maior atrás apenas de um de 100 pontos de Wilt Chamberlain, ser conhecido por sempre estudar metodicamente o jogo e seus adversários, cinco títulos da NBA, uma ética e disciplina que sempre promoveu melhoras em suas habilidades, entre 12 aparições no All-Star Game, maior festa da NBA, e um jogo final de 60 pontos aos 37 anos. Ao terminar a carreira, ambos números de sua camisa de jogo foram aposentados pelo Lakers, eternizando o 8 e o 24, honra para pouquíssimos.

Seu foco virou exemplo e permitiu que jogadores como LeBron James ou Kevin Durant tenham chegado onde estão hoje, sua habilidade e humildade de aprender com os maiores, e isso foi levado ao pé da letra se você assistir os vídeos dele sendo comparado com Michael Jordan, além de seu recomeço como pai e marido, e também como esportista, após enxergar que poderia ser muito mais se trouxesse seu time consigo, entre uma lista de tantas outras coisas, definitivamente o colocam na discussão dos maiores, não apenas do esporte, e sim do que for. 

Obrigado, Kobe.