A arte de se reinventar


“Porém, boto fé, você é o que você ouve”

Uma coisa é se reinventar musicalmente como se tivesse recomeçado a carreira de outra pessoa, outra coisa é acrescentar ao seu trabalho inspirações externas de todos os tipos, aumentar a gama de potencialidade do seu som, tratando a música de maneira mais autoral e feita de dentro pra fora. É assim que enxergo Fantástico Mundo Popular, um disco magistralmente ambientado em diferentes estéticas que permeiam a música latina, jamaicana, nordestina, carioca e traz a rua, a simplicidade dos costumes falando abertamente com um público mais heterogêneo e diversificado. Falando com todos, Sombra se prosta ao povo brasileiro e trata de assuntos como o cabelo, a dificuldade da falta de dinheiro, a loucura desencadeada pela droga, para listar apenas alguns temas.

Um álbum extremamente complexo musicalmente, Fantástico Mundo Popular traz além das rimas precisas e não menos transcedentais de Sombra, a astúcia de um time de peso, os músicos Kiko Dinucci, Thiago França e Maurício Badé que compõem uma espécie de mosaico da música mundial neste disco. Com linhas de contrabaixo que entram pelos poros, conta ainda com harmonias precisas e delicadas na medida certa em que o momento cede. Veja que a música de abertura “Rap do Brasil”, trata-se de um boombap-ragga, ou coisa que o valha. E meu palpite é o de que passaríamos horas tentando criar os neologismos musicais necessários sobre os estilos musicais deste disco.

Sombra é um clássico para quem ouve rap desde a época do SNJ e conhecia os vocais inconfundíveis do “somos nós a justiçÁ” ao lado de Bastardo. Tendo conseguindo emplacar a sua carreira solo com o Sem Sombra de Dúvidas (2006), o rapper apresenta um novo trabalho com um impressionante peso instrumental, além de tratar temas de uma maneira mais próxima às pessoas como pouco têm-se feito ultimamente.

Faixa a faixa

Fantástico Mundo Popular abre com “Rap do Brasil”, um som que mescla o reggae, dirty beat e o clássico boombap, fazendo apenas as honras necessárias para uma imersão segura em um mundo de estilos distintos e que se completam. Seguido do maracatu de “Movimente-se”, com uma rima embolada, embora perspicaz, o disco demonstra mais versatilidade com “Piada Cabeluda”, um ragga com uma rima de repente que antecede “Noticiário Estéreo”, um beat bonito, meio ragga e boombap que fala até da camada de ozônio. “Melô do Doidão”, na metade do disco completa a vibe eletrônica ragga.

A segunda parte começa com “Baque na moleira”, um rap bem levado e na sequência “Chuva de gente estranha”, um repente groovado com a acertada participação de RAPadura. “Cambalacho Mutreta” trata de sobreviver, um rap clássico com provavelmente a mais marcante e notável linha de contrabaixo do disco. Segue-se com “Mano eu vou ali comprar um chá – parte 2”, a clássica canção numa versão early reggae com a participação muito bem encaixada de Rael da Rima e Jorge Du Peixe. E para fechar, a pesada “O homem sem face” que começa dizendo “Desmascarar alguém sem máscara / A máscara caiu então a face vai se revelar / A não ser que a própria face seja a máscara” e, como a melhor parte de ouvir um novo trabalho como este é sacar e chutar referências, dá pra enxergar aquele trecho de Tabacaria, de Fernando Pessoa, junto a este beat tenso e contagiante que encerra o disco.

Confira abaixo!

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